terça-feira, 29 de setembro de 2026

29. "Nu alrest" (1993, Musica Sin Fin) - Radio Tarifa (Espanha)

 

Inicialmente um trio constituído por Benjamín Escoriza (Colomera, Espanha), Faín Dueñas (Valladolid, Espanha) e Vincent Molino (Montpellier, França), os Radio Tarifa são agora um duo, após o falecimento do primeiro em 2012. Contando com vários convidados ao longo da sua carreira, definem a sua música como “Radio Tarifa”, no original escrito em caracteres gregos, frequência paralela onde coabitam, entre outras influências, a música medieval, a música árabe e o flamenco. Danças proibidas, rumbas de vício, rituais pagãos celebrados em vielas recônditas, ópios de carne e areia, picadas de insetos destilando venenos de especiarias elaborados por dezenas de instrumentos acústicos e eletrónicos, árabes, indianos, africanos, balcânicos e medievais fazem da música dos Radio Tarifa um delírio para os ouvidos.


                                      

“Nu alrest” baseia-se no célebre poema "Nu Alrest Lebe Ich Mir Werde" ("Agora sim, vivo para mim mesmo") do célebre minnesänger (trovador) Walther von der Vogelweide (c. 1170 - c. 1230), o compositor medieval alemão mais influente no Ocidente. A letra fala sobre a chegada a uma terra sagrada ou importante, tradicionalmente associada à Terra Santa ou a uma revelação espiritual profunda. Na gravação original, incluída em “Rumba Argelina” (Musica Sin Fin, 1993), o álbum de estreia dos Radio Tarifa, a interpretação vocal contou com a colaboração especial do cantor espanhol Javier Ruibal, que assumiu o desafio de cantar em alemão arcaico (do século XIII). A crítica musical descreve esta escolha artística como uma "loucura feliz" e um ato de absoluta liberdade criativa. Os críticos salientam, ainda, que a faixa possui uma "potente carga de fantasia e tristeza", capaz de evocar imagens poéticas e solenes (como a travessia solitária de um deserto), contrastando e enriquecendo o ecletismo do disco em que se insere, que mistura raízes árabes, andaluzas e medievais.





segunda-feira, 21 de setembro de 2026

28. “Ostara” (2026, Arvur Records) - Faeloria (Canadá)

 

Idealizado e conduzido pela artista Kécia Paquin Lafaille, sediada em Québec, Faeloria é um projeto musical independente, cuja sonoridade é descrita como uma "jornada etérea vinda das profundezas da alma". Através das suas belíssimas composições, Kécia cria ambiências melódicas que misturam espiritualidade, misticismo e introspeção. Explora atmosferas místicas e folclóricas que transitam entre a sombra e a luz e evoca ambientes misteriosos, rituais e paisagens sonoras sombrias, muito alinhadas com a natureza e com o folclore nórdico e pagão e com bandas como os Dead Can Dance e os Irfan, entre outros. O projeto Faeloria tem construído a sua base de fãs de forma independente, gerando tração principalmente através de canais especializados e plataformas digitais. Não existem, por isso, registos oficiais de discos físicos editados pelos Faeloria.

 


“Ostara”, de março de 2026, é o lançamento mais marcante escrito e produzido pela compositora canadiana Kécia Paquin Lafaille, em parceria com Leon Lieffijn, dos Países Baixos. O título do tema refere-se diretamente ao antigo festival pagão germânico e ao equinócio da primavera. A festividade celebra o renascimento, a fertilidade e o equilíbrio entre o dia e a noite. De acordo com a descrição oficial lançada no canal de YouTube do projeto Faeloria, a canção retrata o momento em que a vida “renasce do silêncio e das sombras onde tudo parecia perdido”, simbolizando um sopro frágil de luz que traz a vida de volta. Os instrumentos agem como uma moldura para os vocais etéreos de Kécia Paquin Lafaille, respondendo energicamente às dinâmicas da voz e criando a sensação de um ritual sazonal sagrado. A música abre com camadas de sintetizadores profundas e texturas ambientais que emulam o silêncio, o frio e o vazio do inverno. O uso de notas longas sustentadas em segundo plano (efeito drone) cria uma base hipnótica e ritualística, muito característica do dark folk e da ambient music. A introdução de percussões profundas a meio da música serve como um motor rítmico, simbolizando o "sopro de vida" e os batimentos cardíacos da terra a despertar do seu estado de dormência. A crítica tem destacado a atmosfera etérea criada por Kécia Paquin Lafaille e a produção polida de Leon Lieffijn, elogiando a capacidade da faixa de transportar o ouvinte para ambientes ancestrais e naturais.





terça-feira, 15 de setembro de 2026

27. “Prituri se Planinata” (2009, Lucidity Music Productions) - Stellamara (EUA/ …)

 

Os Stellamara começaram quando a vocalista e produtora Sonja Drakulich criou um fascinante veículo para o desenvolvimento da música devocional com base no Próximo Oriente e nas tradições medievais. De ascendência Sérvia e Húngara e radicada em Los Angeles, Sonja soube rodear-se de extraordinários músicos de diversas origens culturais e dedicou-se a celebrar a beleza, o amor, a dissonância perfeita e os ritmos apaixonantes. Enraizada nas tradições musicais turcas, árabes, balcânicas, persas e medievais europeias, a música dos Stellamara transmite uma profunda devoção às sonoridades dessas culturas e atrai irresistivelmente. Ouvir os Stellamara é como passar por uma nova experiência de fábulas místicas medievais, de misteriosas e profundas vozes étnicas, de ritmos provenientes de recônditos paraísos e de ondas expansivas de sons que enlevam os sentidos.



“Prituri se Planinata”, o tema mais fascinante dos Stellamara, faz parte do registo “The Golden Thread”, editado pela etiqueta Lucidity Music Productions, em 2009. A música original é um famoso tema tradicional da Bulgária que reflete profundamente o valor e o simbolismo do amor materno no folclore tradicional búlgaro. Conta a história de dois amigos pastores que ficam presos numa montanha, devido a uma tempestade iminente, e que pretendem voltar para as pessoas que os esperam — um para junto da sua mãe idosa e o outro para a sua jovem esposa (o seu primeiro e único amor). A montanha decide que apenas deixará escapar aquele cuja mãe o espera. A justificação tradicional é que uma esposa chora durante algum tempo e depois encontra um novo amor, mas o luto de uma mãe dura a vida inteira. A releitura do tema tradicional búlgaro destaca-se pela fusão entre a música modal do Mediterrâneo Oriental, instrumentação acústica tradicional (como a lira cretense de Ross Daly) e a voz etérea de Sonja Drakulich.





quarta-feira, 9 de setembro de 2026

26. “Iacoute Song” (1994, Sony) - Hector Zazou (Argélia/ França) (Feat. Lioudmila Khandi)

 

Nascido em Sidi bel Abbès (Argélia), em 11 de julho 1948, e radicado em França, o brilhante músico, compositor e produtor Hector Zazou veio a falecer em 8 de setembro de 2008, aos 60 anos, não sem antes deixar um extraordinário legado. A propósito da sua importância, o diretor da revista francesa Actuel sentenciou: «Na Inglaterra têm Peter Gabriel, nos Estados Unidos David Byrne e em França temos Hector Zazou». Com efeito, conhecido pela sua obra multifacetada e inovadora, Zazou esteve ligado à música clássica, eletrónica, pop e world music e foi um pioneiro na fusão de músicas de diferentes géneros e origens geográficas, aparentemente inconciliáveis. Ao longo dos anos, Zazou construiu uma carreira invejável, tendo trabalhado com nomes como Laurie Anderson, Björk, Brian Eno, Peter Gabriel, John Cale, Suzanne Vega, Sussan Deyhim, David Sylvian, Lisa Germano e Ryuchi Sakamoto, entre outros. Por outro lado, soube rodear-se de alguns dos melhores intérpretes das músicas tradicionais e embrenhar-se sabiamente no mundo das polifonias corsas, das vozes búlgaras, das canções dos mares gélidos, da música celta ou das sonoridades africanas...



“Iacoute Song”, o tema mais fascinante do aclamado álbum de Hector Zazou, “Chansons des Mers Froides”/ “Songs from the Cold Seas” (1994), é baseado em cantos tradicionais iacutos (também chamados de yakuts ou sakhas), um povo indígena de origem turca que habita principalmente a República de Iacútia (ou Sakha), na Sibéria (Rússia). Interpretam-no Lioudmila Khandi (voz), Hector Zazou (teclados e programação eletrónica), The Balanescu Quartet (cordas), Noriko Sanagi (koto, um instrumento de cordas dedilhadas do Japão, semelhante a uma grande cítara) e Renault Pion (sopros). A técnica de canto gutural e os efeitos modulados da voz da intérprete tradicional da etnia Iacute foram descritos na altura como "impressionantes" e "hipnotizantes", criando um contraste perfeito com a eletrónica minimalista de Zazou. O ambiente da faixa foi rotulado como místico, etéreo, mas também "intrigante" e "quase aterrorizador", capturando com precisão a vastidão desolada e gelada da Sibéria. Críticos da imprensa musical (como a revista Sound on Sound) sublinharam que o tema oferecia sons "tão invulgares que o efeito de queixo caído era inevitável" para os ouvintes ocidentais. Uma das reações mais famosas associadas a "Iacoute Song" na cultura pop e em fóruns de discussão musical (como o Reddit) é o facto de ser frequentemente citada como uma das canções favoritas do aclamado realizador de cinema David Lynch.