domingo, 12 de abril de 2026

3. “Bamako” (2002, Universal) - Roswell Rudd & Toumani Diabaté (EUA/ Mali)

 

O maliano Toumani Diabaté (1965-2024) foi, segundo Nick Gold (World Circuit), o portador da chama de uma das formas de arte mais belas do mundo. Considerado o maior tocador da sua geração da famosa kora (espécie de harpa de 21 cordas), Diabaté descendeu dos griots mandinka, os contadores de histórias do ocidente africano. Roswell Rudd (1935-2017) foi um conceituado trombonista e compositor americano de jazz de vanguarda e free jazz, conhecido pela sua versatilidade e fascínio por sons africanos, tendo adaptado o seu instrumento a contextos musicais tradicionais. Em parceria, Toumani e Roswell editaram o álbum “MALIcool” (2002), que destacou a capacidade de ambos de transcender fronteiras geográficas e musicais e que contou com a participação de outros músicos de renome como Bassekou Kouyate no ngoni e Lassana Diabaté no balafon.


         

“Bamako”, a faixa de abertura de “MALIcool”, é o exemplo mais sublime que se pode encontrar de um encontro entre a música tradicional africana e o jazz moderno. As cordas delicadas e cristalinas da kora de Toumani Diabaté entrelaçam-se na sonoridade crua e expressiva do trombone de Roswell Rudd, que assume um papel quase vocal, e sugerem-nos uma imagem contemporânea da tradição clássica do Mali, em consonância com ambiências ocidentais. Ao contrário de muitas colaborações forçadas, esta é uma fusão autêntica onde as culturas se absorvem mutuamente e nos transportam para paisagens líricas, intensas, preciosamente ornamentadas e de uma beleza indescritível.





terça-feira, 7 de abril de 2026

2. “Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen” (1994, Sony Classical) - “Lambarena” (Gabão/ França/ …)

 

Albert Schweitzer (1875 - 1965) foi um teólogo, filósofo, médico, organista e reconhecido especialista da obra de Bach. Nascido na Alsácia, então parte do Império Alemão (atualmente, uma região administrativa francesa), decidiu partir para Lambaréné, no Gabão, onde se dedicou à medicina e fundou um hospital missionário. Em 1952 foi laureado com o Prémio Nobel da Paz. A francesa Mariella Berthéas e a fundação "L'Espace Afrique", fervorosos apreciadores da riquíssima obra de Albert Schweitzer, idealizaram um projeto que o homenageasse e que perpetuasse a sua memória. Nasceu, assim, "Lambarena - Bach to Africa" (1994, Sony Classical), um registo que junta as duas tradições musicais centrais da vida do médico alemão, as obras de J.S. Bach e a música do Gabão. Este arrojado projeto viria a ser concretizado pelos músicos Hughes de Courson (compositor e produtor francês, cofundador do lendário grupo Malicorne) e Pierre Akendengué (guitarrista, autor e filósofo gabonês), que se rodearam de músicos europeus com formação clássica, de dez grupos do Gabão e de músicos da Argentina (Osvaldo Cala e Tomás Gubitsch), Brasil (Naná Vasconcelos) e Camarões (Sami Ateba).

   

“Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen” é uma belíssima fusão do coro "Lasset uns den nicht zerteilen", extraído da Paixão segundo São João (BWV 245) de J.S. Bach, com o canto tradicional gabonês "Sankanda". A música de Bach, que celebra a ressurreição, combina com a dança gabonesa da região de Haut-Ogoué, interpretada na língua Obamba, que celebra acontecimentos alegres como casamentos e o fim do luto. Não se trata apenas de uma sobreposição, uma vez que as melodias barrocas de Bach são sabiamente entrelaçadas com os ritmos, coros e instrumentos tradicionais africanos. Ambas coexistem sem abdicar da sua integridade, interagem e complementam-se na sua exuberante afirmação da vida. O diálogo resultante, entre a música barroca europeia e a cultura gabonesa, capta misteriosamente o impulso musical comum às duas tradições e revela novos significados, soando surpreendentemente naturais e orgânicos.



sexta-feira, 3 de abril de 2026

1. “Persian Love” (1979, EMI Electrola) - Holger Czukay (Alemanha)

 

Enquanto os Can foram mestres da batida hipnótica e tribal através da incorporação da eletrónica no universo rock, Holger Czukay (1938–2017), o seu extraordinário baixista e cofundador, criou pontes entre as vanguardas, as linguagens pop e as emergentes “Músicas do Mundo”. Tendo estudado alguns anos com Karlheinz Stockhausen, o visionário músico alemão tornou-se, nos anos 1960 e 1970, num pioneiro das técnicas de sampling (reutilização de uma parte de uma gravação de áudio existente) que, na altura, envolviam um meticuloso processo de corte e colagem, antecipando procedimentos que acabaram por se disseminar no seio da música contemporânea.

                                        

A manipulação de fitas e o sampling nunca criaram uma faixa tão hipnótica como “Persian Love”. Peça fulcral do álbum “Movies” (1979, EMI Electrola), posteriormente lançada em single e incluída na compilação “Cannibalism III” (Spoon, 1994), trata-se de um autêntico milagre de fusão musical, convenientemente ensaiada por Holger Czukay ao longo de duas décadas de atividade experimental bem-sucedida no seio dos Can. Duas vozes persas captadas num aparelho de onda curta, ora soando em êxtase, ora em desânimo, dominam magistralmente o tema e conferem-lhe uma atmosfera de mistério e encantamento. Em estúdio, Czukay adicionou linhas de cordas e teclas cintilantes em contraponto às vozes lamentosas e etéreas e Jaki Liebezeit, também da trupe dos Can, complementou com uma batida simples e repetitiva.

A exímia combinação de cantos exóticos com estimulantes ritmos de dança fez desta peça um clássico intemporal. O músico inglês Jah Wobble, membro fundador da banda Public Image Ltd e líder dos Jah Wobble's Invaders of the Heart, referiu que "as vozes são tão bonitas que pensei nunca mais tentar cantar!"; o romancista escocês Alan Warner alegou que “Persian Love” são “6:22 da beleza e da alegria de viver”; e o jornalista e radialista português Rui Miguel Abreu considerou que o tema é “um fabuloso e visionário clássico, verdadeira música sem fronteiras e sem tempo…”