segunda-feira, 27 de abril de 2026

7. “Rumeli Hisari'nin Yapilisi” (2006, Poem Music) - Can Atilla (Turquia)

 

Can Atilla, nascido em 1969 em Ancara, é um conceituado compositor e músico turco, conhecido por fundir música eletrónica, clássica e étnica. Dedicando-se principalmente à música sinfónica e à new age, fílmica e épica, Can Atilla é hoje reconhecido como um dos mais importantes intérpretes da música instrumental turca contemporânea, ainda que as suas composições mais relevantes se inspirem na música tradicional. Atilla define o seu trabalho como simplesmente "composição de música", utilizando para o efeito teclados eletrónicos e instrumentos tecnológicos, entre outros. A crítica musical turca aponta Can Atilla como o pioneiro do "Ottoman Crossover", reconhecendo-lhe a relevância na modernização da herança otomana.

“Rumeli Hisari'nin Yapilisi”, uma peça instrumental que aborda a história da conquista de Istanbul em 1453, está incluída no registo “1453 Sultanlar Aşkına” (2006, Poem Music). A faixa é celebrada pela sua atmosfera épica e mística e evoca o contexto histórico da construção da Fortaleza de Rumeli (Rumeli Hisarı) em 1452, um evento crucial liderado por Fatih Sultan Mehmed (Maomé II) para controlar o Bósforo, antes da conquista de Constantinopla. É citada como o exemplo perfeito de como fundir instrumentos tradicionais (como o ney, o ud, o kudüm ou o bendir) com violinos (keman) e sintetizadores modernos (klavyeler) e soar como uma narrativa clássica com paisagens sonoras modernas. É, por isso, frequentemente descrita como uma obra que "transporta o ouvinte para o século XV, usando ferramentas do século XXI". No portal Ekşi Sözlük (uma das maiores plataformas de opinião na Turquia), é recorrentemente descrita como "hipnótica" e "mística".



quinta-feira, 23 de abril de 2026

6. "For M’schr and Djingis Khan" (1977, ECM) - Stephan Micus (Alemanha)


Stephan Micus é um cantor, multi-instrumentalista e compositor alemão, nascido em Estugarda, em 19/01/1953. Viajante incansável, desde muito cedo percorreu o planeta em busca dos mais exóticos sons do mundo. Aprendeu, simultaneamente, a tocar uma grande variedade de instrumentos tradicionais, pertencentes a diversos povos do planeta, exprimindo musicalmente uma vontade de aproximar culturas e expressões, ignoradas durante décadas. Por outro lado, Stephan Micus foi utilizando as técnicas mais avançadas para gravar as vozes que aparecem nos seus discos, criando harmonias mágicas que envolvem as suas composições como um perfume. Os temas dos seus discos são, assim, belos diálogos que refletem fielmente a sua visão global e a sua música sem fronteiras. Recolhendo elementos étnicos e religiosos das tradições do Ocidente e do Oriente, a música de Stephan Micus é, pois, uma viagem de contemplação. Mais do que pelas geografias do globo, pelos mapas do espírito...

“For M’schr and Djingis Khan”, que enquadra o registo “Implosions” (1977, ECM), é uma canção que evoca imagens das estepes mongóis e cria um impacto puramente emocional que sugere uma "tranquilidade serena", prestes a ser interrompida por algo indecifrável. Micus utiliza exclusivamente o rabab (um alaúde tradicional do Afeganistão, com 13 cordas de ressonância) e enriquece-o com a sua voz característica, cantando numa língua inventada, composta por sílabas e onomatopeias sem significado léxico específico, para realçar a pureza do som. Esta abordagem é, aliás, uma característica central de toda a obra do músico alemão, que vê a voz como um instrumento e as palavras como veículos puramente emocionais e intuitivos. Críticos do site ECM Reviews notam que este tema "se equilibra num ponto de inflexão para o infinito", elogiando como Micus utiliza um "diamante bruto" (o rabab) para ancorar os seus vocais improvisados e criar uma experiência espiritual profunda.





segunda-feira, 20 de abril de 2026

5. “True To The Times/Two” (1993, New Albion) - David Hykes (EUA)

 

David Hykes é um compositor, cantor e professor de meditação. Nasceu em Taos, Novo México (EUA), em 2 de março de 1953, e reside em Paris, desde 1987. Após pesquisas e viagens para estudar as formas de canto da Mongólia, do Tibete e do Médio Oriente, Hykes iniciou uma longa série de colaborações com especialistas em tradições e em arte sagrada, incluindo o Dalai Lama e os monges de Gyuto e Gyume (Tibete). Em 1975, fundou em Nova Iorque o Harmonic Choir e desenvolveu uma abordagem abrangente para a música contemplativa a que chamou “Canto Harmónico”, tendo sido um dos primeiros músicos ocidentais modernos a utilizar a técnica vocal em que um cantor produz duas notas distintas simultaneamente.  

             

“True To The Times/two” é uma peça incluída no registo “True To The Times (How To Be?)”, lançado originalmente em 1993 pela New Albion Records. Esta sedutora e hipnótica composição, uma fusão entre o canto harmónico e uma instrumentação sóbria, revela-se uma experiência profundamente meditativa e inovadora. Hykes canta, toca sintetizador e monitoriza um amostrador digital S1000 (para processar e gerar sons de percussão e texturas rítmicas na composição), sendo acompanhado pelos australianos Peter Biffin (dobro) e Tony Lewis (tabla). O objetivo de Hykes foi o de mostrar o canto harmónico como um campo unificado que une canto, modo, texto e ritmo sagrados. Baseou-se no canto bifónico, semelhante ao denominado "Throat singing" dos monges budistas de Gyuto ou dos cantores de Tuva. O The Guardian, jornal britânico de referência, classificou este trabalho de Hykes como um dos mais "belamente estranhos", sublinhando a mestria técnica necessária para produzir múltiplos sons simultaneamente com uma única voz.



sexta-feira, 17 de abril de 2026

4. “Margjit og Targjei Risvollo” (1989, ECM) - Agnes Buen Garnås & Jan Garbarek (Noruega)


Jan Garbarek é um aclamado saxofonista de jazz norueguês, amplamente reconhecido como uma das figuras centrais do jazz europeu contemporâneo e um dos intérpretes mais emblemáticos da ECM Records. Tornou-se famoso pelo seu tom de saxofone distintivo - muitas vezes descrito como "gelado", "nórdico" ou "etéreo" - que combina a improvisação do jazz com elementos da música tradicional escandinava, música clássica e world music. Agnes Buen Garnås (1946–2024) foi uma das mais influentes cantoras de música tradicional da Noruega, originária de uma família musical de renome em Telemark, um dos 15 condados do país. É amplamente celebrada pela sua mestria nas baladas medievais norueguesas e por ter revitalizado tradições vocais antigas, inspirando gerações de novos artistas. Juntos editaram "Rosensfole: Medieval Songs from Norway" (1989, ECM), um registo que abarca um repertório da Noruega que recua no tempo até à idade Média, em que Agnes canta em norueguês e Jan Garbarek toca sintetizadores, percussão e saxofones.

“Margjit Og Targjei Risvollo” é uma história complexa e trágica de amor frustrado numa quinta de Telemark, na Noruega. É, indubitavelmente, um tema hipnótico, convincente pelas trajetórias descritas pela voz poderosa de Agnes Buen Garnås e pela subtileza da percussão de Garbarek. Durante a maior parte desta epopeia de dezasseis minutos, Garbarek toca um pote de barro, com uma precisão que remete para os tocadores de ghatam da Índia, bem como teclas absolutamente fascinantes, que se repetem infinitamente sobre “drones” profundos. Apesar da recriação ser livre e inteiramente determinada por critérios subjetivos, mas não necessariamente arbitrários, estamos na presença de uma pérola intemporal, daquelas que se levam para uma ilha deserta.


domingo, 12 de abril de 2026

3. “Bamako” (2002, Universal) - Roswell Rudd & Toumani Diabaté (EUA/ Mali)

 

O maliano Toumani Diabaté (1965-2024) foi, segundo Nick Gold (World Circuit), o portador da chama de uma das formas de arte mais belas do mundo. Considerado o maior tocador da sua geração da famosa kora (espécie de harpa de 21 cordas), Diabaté descendeu dos griots mandinka, os contadores de histórias do ocidente africano. Roswell Rudd (1935-2017) foi um conceituado trombonista e compositor americano de jazz de vanguarda e free jazz, conhecido pela sua versatilidade e fascínio por sons africanos, tendo adaptado o seu instrumento a contextos musicais tradicionais. Em parceria, Toumani e Roswell editaram o álbum “MALIcool” (2002), que destacou a capacidade de ambos de transcender fronteiras geográficas e musicais e que contou com a participação de outros músicos de renome como Bassekou Kouyate no ngoni e Lassana Diabaté no balafon.


         

“Bamako”, a faixa de abertura de “MALIcool”, é o exemplo mais sublime que se pode encontrar de um encontro entre a música tradicional africana e o jazz moderno. As cordas delicadas e cristalinas da kora de Toumani Diabaté entrelaçam-se na sonoridade crua e expressiva do trombone de Roswell Rudd, que assume um papel quase vocal, e sugerem-nos uma imagem contemporânea da tradição clássica do Mali, em consonância com ambiências ocidentais. Ao contrário de muitas colaborações forçadas, esta é uma fusão autêntica onde as culturas se absorvem mutuamente e nos transportam para paisagens líricas, intensas, preciosamente ornamentadas e de uma beleza indescritível.





terça-feira, 7 de abril de 2026

2. “Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen” (1994, Sony Classical) - “Lambarena” (Gabão/ França/ …)

 

Albert Schweitzer (1875 - 1965) foi um teólogo, filósofo, médico, organista e reconhecido especialista da obra de Bach. Nascido na Alsácia, então parte do Império Alemão (atualmente, uma região administrativa francesa), decidiu partir para Lambaréné, no Gabão, onde se dedicou à medicina e fundou um hospital missionário. Em 1952 foi laureado com o Prémio Nobel da Paz. A francesa Mariella Berthéas e a fundação "L'Espace Afrique", fervorosos apreciadores da riquíssima obra de Albert Schweitzer, idealizaram um projeto que o homenageasse e que perpetuasse a sua memória. Nasceu, assim, "Lambarena - Bach to Africa" (1994, Sony Classical), um registo que junta as duas tradições musicais centrais da vida do médico alemão, as obras de J.S. Bach e a música do Gabão. Este arrojado projeto viria a ser concretizado pelos músicos Hughes de Courson (compositor e produtor francês, cofundador do lendário grupo Malicorne) e Pierre Akendengué (guitarrista, autor e filósofo gabonês), que se rodearam de músicos europeus com formação clássica, de dez grupos do Gabão e de músicos da Argentina (Osvaldo Cala e Tomás Gubitsch), Brasil (Naná Vasconcelos) e Camarões (Sami Ateba).

   

“Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen” é uma belíssima fusão do coro "Lasset uns den nicht zerteilen", extraído da Paixão segundo São João (BWV 245) de J.S. Bach, com o canto tradicional gabonês "Sankanda". A música de Bach, que celebra a ressurreição, combina com a dança gabonesa da região de Haut-Ogoué, interpretada na língua Obamba, que celebra acontecimentos alegres como casamentos e o fim do luto. Não se trata apenas de uma sobreposição, uma vez que as melodias barrocas de Bach são sabiamente entrelaçadas com os ritmos, coros e instrumentos tradicionais africanos. Ambas coexistem sem abdicar da sua integridade, interagem e complementam-se na sua exuberante afirmação da vida. O diálogo resultante, entre a música barroca europeia e a cultura gabonesa, capta misteriosamente o impulso musical comum às duas tradições e revela novos significados, soando surpreendentemente naturais e orgânicos.



sexta-feira, 3 de abril de 2026

1. “Persian Love” (1979, EMI Electrola) - Holger Czukay (Alemanha)

 

Enquanto os Can foram mestres da batida hipnótica e tribal através da incorporação da eletrónica no universo rock, Holger Czukay (1938–2017), o seu extraordinário baixista e cofundador, criou pontes entre as vanguardas, as linguagens pop e as emergentes “Músicas do Mundo”. Tendo estudado alguns anos com Karlheinz Stockhausen, o visionário músico alemão tornou-se, nos anos 1960 e 1970, num pioneiro das técnicas de sampling (reutilização de uma parte de uma gravação de áudio existente) que, na altura, envolviam um meticuloso processo de corte e colagem, antecipando procedimentos que acabaram por se disseminar no seio da música contemporânea.

                                        

A manipulação de fitas e o sampling nunca criaram uma faixa tão hipnótica como “Persian Love”. Peça fulcral do álbum “Movies” (1979, EMI Electrola), posteriormente lançada em single e incluída na compilação “Cannibalism III” (Spoon, 1994), trata-se de um autêntico milagre de fusão musical, convenientemente ensaiada por Holger Czukay ao longo de duas décadas de atividade experimental bem-sucedida no seio dos Can. Duas vozes persas captadas num aparelho de onda curta, ora soando em êxtase, ora em desânimo, dominam magistralmente o tema e conferem-lhe uma atmosfera de mistério e encantamento. Em estúdio, Czukay adicionou linhas de cordas e teclas cintilantes em contraponto às vozes lamentosas e etéreas e Jaki Liebezeit, também da trupe dos Can, complementou com uma batida simples e repetitiva.

A exímia combinação de cantos exóticos com estimulantes ritmos de dança fez desta peça um clássico intemporal. O músico inglês Jah Wobble, membro fundador da banda Public Image Ltd e líder dos Jah Wobble's Invaders of the Heart, referiu que "as vozes são tão bonitas que pensei nunca mais tentar cantar!"; o romancista escocês Alan Warner alegou que “Persian Love” são “6:22 da beleza e da alegria de viver”; e o jornalista e radialista português Rui Miguel Abreu considerou que o tema é “um fabuloso e visionário clássico, verdadeira música sem fronteiras e sem tempo…”