segunda-feira, 31 de agosto de 2026

25. “Yeh Jo Halka Halka Saroor Hae” (1980, Oriental Star Agencies) - Nusrat Fateh Ali Khan (Paquistão)

 

Nusrat Fateh Ali Khan (nascido a 13/10/1948, em Faisalabad, Paquistão e falecido a 16/08/1997, em Londres, Inglaterra) foi considerado o maior intérprete contemporâneo de Qawwali, o canto religioso da corrente espiritual mística islamista Sufi. Com uma voz potente, incrivelmente bem timbrada e inimitável, Nusrat foi o continuador de uma tradição musical que, na sua família, remontava a seis séculos de interpretação de Qawwali, seguindo as pisadas do pai, o também respeitadíssimo cantor Ustad Fateh Ali Khan. Nusrat gravou mais de 100 álbuns, granjeando a admiração e veneração de Peter Gabriel pelas suas performances, o que os levou a trabalhar juntos em vários projetos que incluíram um álbum de compilações, várias atuações ao vivo e o lançamento de registos para a companhia discográfica Real World. Nas suas atuações, Nusrat Fateh Ali Khan fixava as audiências e monopolizava-as, dada a qualidade meditativa, hipnótica e transcendental da sua música.




“Yeh Jo Halka Halka Saroor Hae” (também grafada como Suroor Hai), composta e interpretada originalmente pelo lendário artista paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, é uma das obras mais profundas e célebres da história do Qawwali (música devocional sufi). Apareceu pela primeira vez numa gravação ao vivo de 1979 no Reino Unido, lançada em 1980 pela editora britânica Oriental Star Agencies no álbum ao vivo “Yeh Jo Halka Halka, Saqi Mere Saqi, Mere Baad Kisko Satao Ge”. Posteriormente, o tema foi reeditado em vários outros álbuns de compilações e versões de estúdio ao longo das décadas de 1980 e 1990, nomeadamente em “Yeh Jo Halka Halka” (1991, Jaro Medien), “The Day, the Night, the Dawn, the Dusk” (1991, Shanachie) e “Love Songs” (1992, Real World). A letra (baseada em versos de poetas Sufis) utiliza a metáfora da embriaguez e do vinho, uma linguagem poética Sufi muito comum para expressar o amor. O "Saqi" (o servo que serve o vinho) representa o mestre espiritual ou o próprio Divino e o "Saroor" (a leve embriaguez) é o estado de êxtase místico alcançado através da devoção absoluta e da proximidade com Deus. Musicalmente, a canção destaca-se pelo ritmo hipnotizante e pela progressão emocional típica do Qawwali clássico. Começa de forma lenta, com o som do harmónio e dos aplausos ritmados (Taali), mas, à medida que a canção avança, o ritmo acelera gradualmente guiado pelas tablas (percussão), levando os ouvintes e os músicos a um estado de quase transe espiritual.




domingo, 23 de agosto de 2026

24. “Erau zarzării-nfloriţi” (1975, Electrecord) - Romică Puceanu & Orchestra Florea Cioacă (Roménia)

 

Romică Puceanu (1927–1996), considerada a rainha da canção cigana na Roménia, ficou conhecida como a "Billie Holiday do Leste", graças à sua voz profunda e às suas interpretações de canções de mahala (subúrbios de Bucareste) e canções lăutărească (tradicionais ciganas romenas). Diva corpulenta, tragicamente desaparecida num acidente de carro, Romică Puceanu emergiu como a expressão por excelência de um estilo dolente e fatalista, não destituído de um certo charme exótico. Tornou-se na principal estrela dos restaurantes e salões de festa de Bucareste durante as décadas de 1960 a 1980 e elevou o folclore e as canções de taberna da Roménia a um patamar de expressividade artística comparável aos grandes nomes do jazz.



“Erau zarzării-nfloriţi”, lançado pela primeira vez na Roménia no álbum “Cine Nu Știe Ce-i Doru” (Electrecord, 1975), ganhou projeção internacional graças à sua inclusão na magnífica antologia “Road of the Gypsies: L'Épopée Tzigane” (Network, 1996). Trata-se de uma faixa sublime da música tradicional romena e cigana (muzică lăutărească), resultado da colaboração lendária entre a diva Romică Puceanu e a Orchestra Florea Cioacă. A letra da canção aborda a melancolia da passagem do tempo, a nostalgia da juventude e as desilusões do amor, usando a primavera e a natureza como contrastes para a dor emocional. A voz visceral de Romică transmite uma melancolia profunda e uma alma crua, traços que a consagraram como a rainha da “muzică de mahala”, o estilo de música urbana e folclórica da Roménia. A Orquestra de Florea Cioacă oferece um acompanhamento rico em ornamentos de violino e acordeão, evocando uma sensação de lamento e "cansaço existencial" misturado com uma beleza poética marcante, definindo o som clássico e vibrante da Roménia rural e urbana do século XX.






quinta-feira, 13 de agosto de 2026

23. “Boaimmáš (Rough-legged Buzzard)” (1995, Rockadillo) - Wimme Saari (Finlândia)

 

Wimme Saari, conhecido artisticamente apenas como Wimme, é um dos maiores cantores joik (o canto do povo Sáami, que privilegia a expressão de sentimentos e de emoções, sob a forma de melodias quase demoníacas). É, também, exímio na improvisação e na gestão do arco tímbrico exigido pelo canto gutural do estilo, apresentado a capella ou com a delicada companhia instrumental de clarinete, percussões, cordas e eletrónica. Wimme revolucionou o género ao fundir a espiritualidade e as improvisações vocais do joik tradicional com paisagens sonoras contemporâneas, incluindo música eletrónica, ambient, techno e jazz.



“Boaimmás” (que se traduz do idioma Sáami para o inglês como Rough-legged Buzzard) é o tema mais emblemático de Wimme Saari e foi lançado originalmente no seu aclamado álbum de estreia, “Wimme”, de 1995. O título traduz-se como “Bútio-pálido” (Buteo lagopus), uma ave de rapina ártica e subártica de grande importância na região da Lapónia. A música procura canalizar a essência, o voo e o espírito desta ave através do som, tanto mais que na cultura do povo indígena Sáami, os animais e os elementos da natureza possuem um forte elo espiritual. Para o efeito, Wimme conta com o acompanhamento e a produção de membros do grupo eletrónico finlandês RinneRadio, liderado por Tapani Rinne. A batida eletrónica hipnótica serve de base para as improvisações e assobios característicos de Wimme, que mimetizam os sons do vento e o chamamento da própria ave. "Boaimmás" ajudou a projetar a música Sáami além das fronteiras escandinavas e tornou-se uma referência global de como a música folk tradicional pode coexistir de forma orgânica com a vanguarda eletrónica.





sábado, 1 de agosto de 2026

22. "Paseabase el rey moro" (1997, MA Recordings) - Begoña Olavide (Espanha)

 

A espanhola Begoña Olavide possui o título superior de flauta no Conservatório de Madrid e especializou-se na interpretação do saltério, trabalhando com o alaudista Carlos Paniagua na recuperação dos diferentes modelos da família deste instrumento. Entre outros projetos, Olavide cofundou o prestigiado agrupamento de música antiga Calamus (1980 a 1996); dirigiu o festival Tarab Tánger (Marrocos); foi solista com a Orquestra Nacional de Espanha; colaborou ativamente com referências como Jordi Savall e Montserrat Figueras;  compôs e interpretou música para obras de teatro e realizadores de cinema como Carlos Saura e José María Forqué; realizou cursos de especialização na Holanda, Jugoslávia e Espanha; e aprofundou, durante o período em que viveu em Marrocos (2005 e 2012), os conhecimentos de canto, qanoun e teoria da música arabo-andalusa. Na sua carreira musical a solo, Olavide tem-se destacado, sobretudo, na interpretação de uma música de fusão dos dois estilos mais importantes da Espanha medieval, o cristão e o muçulmano.



“Paseabase el rey moro” faz parte de "Mudejar" (1997, MA Recordings), o segundo registo da virtuosa tocadora de saltério, Begoña Olavide, e insere-se no repertório do romancero viejo tradicional hispânico e da música antiga/mudéjar. O poema narra a conquista da fortaleza de Alhama pelas tropas cristãs em 1482, no contexto da Guerra de Granada. O romancista e historiador Pérez de Hita (1544–1619) referiu-se a este romance como tendo raízes ou influências diretas de cantos fronteiriços hispano-árabes. Begoña Olavide baseou-se no compositor e vihuelista renascentista Luys de Narbaez, o responsável pela primeira versão musical escrita e polifónica conhecida deste tema.  Olavide recorre a um arranjo puramente acústico, misturando a corda pulsada medieval com o saltério, evocando sonoridades arabo-andaluzas. A voz de Begoña adota uma linha melódica fluida, despida de ornamentos excessivos modernos, focando-se na cadência narrativa e emotiva do romance medieval.