domingo, 26 de julho de 2026

21. “In The Gardens Of Armida” (2015, Prikosnovénie) - Irfan (Bulgária)

 

Os Irfan são um coletivo búlgaro formado em Sófia em 2001. O seu nome, resgatado à terminologia Sufi, que em persa e árabe significa “gnosis”, “conhecimento místico” ou “revelação”, induz o seu próprio universo, baseado numa cultura de evocações ancestrais, repleto de referências sagradas e de elementos étnicos. A excecional voz de Denitza Seraphimova, que nos lembra a de Lisa Gerrard (Dead Can Dance), formou-se nos coros das tradicionais misteriosas vozes búlgaras. Denitza é o elemento central de um grupo que funde com grande mestria influências de várias culturas. A música dos Irfan é um convite a uma viagem mística no tempo, uma mensagem poeticamente estendida na linguagem do amor. Apesar da dificuldade em se catalogar a música dos Irfan, os críticos são unânimes em a considerar como uma espécie de fusão das várias músicas étnicas, nomeadamente das tradições búlgara, persa, caucasiana, do Norte de África e do Médio Oriente, fortemente impregnadas pela herança cultural do Império Bizantino e da música medieval ocidental.



“In The Gardens Of Armida”, lançada em 2015 no álbum “The Eternal Return”, evoca um célebre mito literário e artístico ocidental. O título refere-se diretamente ao poema épico do século XVI “Gerusalemme liberata” (Jerusalém Libertada), escrito pelo italiano Torquato Tasso. Na obra, Armida é uma feiticeira pagã que cria um jardim encantado para aprisionar o cavaleiro cruzado Rinaldo através da sedução e de feitiços amorosos, afastando-o dos seus deveres de guerra. "Os Jardins de Armida" tornaram-se uma metáfora universal para a tentação, os prazeres sensuais e a ilusão que paralisam a força de vontade. Fiel ao estilo neoclassical, darkwave e world music dos Irfan, a faixa utiliza uma atmosfera mística e melancólica que recria sonoramente esse ambiente de feitiçaria, isolamento e beleza hipnótica do jardim medieval.











quinta-feira, 16 de julho de 2026

20. “Inna l malak (L'ange cria la resurrection/ The angel shouted resurrection)” (2008, Univerkey Productions) - Soeur Marie Keyrouz (Líbano)

 

Marie Keyrouz é uma freira libanesa (nascida em 1963, em Deir Al-Ahmar) e cantora multilingue de música religiosa, especializada em canções sagradas e cânticos do Médio Oriente. Criada na tradição católica oriental da Igreja Maronita, estudou música e antropologia religiosa em várias universidades e, mais tarde, emitiu os seus votos na Igreja Católica Grega Melquita. Juntando a sua devoção religiosa e os seus talentos musicais e cantando em línguas como o libanês, o grego, o siríaco e o árabe, Keyrouz tornou-se conhecida como uma das primeiras sopranos do mundo na tradição da música de igreja oriental. Gravou a maior parte dos seus álbuns juntamente com o seu grupo, o Ensemble de la Paix, que teve origem em 1984. Entretanto, tendo-se mudado para Paris, anos antes, para completar os seus estudos universitários, lançou e dirigiu o L'Instituit International de Chant Sacré - também conhecido como o Instituto Nacional de Música Sacra - em 1994.


   

“Inna l malak (L'ange cria la résurrection/ The angel shouted resurrection)” faz parte do alinhamento de “La Passion dans les Eglises Orientales” (2008, Univerkey Productions), um álbum cujos benefícios da sua venda foram canalizados para a ajuda à escolarização das crianças desfavorecidas do Líbano. Gravado originalmente no seu aclamado álbum de estreia “Chant Byzantin” (1989, Harmonia Mundi) e presente em coletâneas posteriores, o tema “Inna l malak”, que se pode traduzir por "O Anjo exclamou", é baseado na 9ª Ode do Cânone do Domingo de Páscoa, um texto sagrado atribuído a São João Damasceno (século VIII). Trata-se de um cântico litúrgico da Igreja Católica Grego-Melquita (cristãos orientais de rito bizantino), cantado inteiramente em língua árabe, que descreve o momento evangélico da Ressurreição de Jesus Cristo sob a perspetiva da Virgem Maria. Marie Keyrouz interpreta o tema usando técnicas do canto bizantino oriental, caracterizado por microtons, ornamentações vocais rápidas (vocal flourishes) e modulações melódicas complexas, aliando os seus profundos conhecimentos musicológicos do canto sacro a uma voz com um timbre de rara beleza e espiritualidade.





segunda-feira, 6 de julho de 2026

19. “Nedaye Eshgh” (2019, Tarr Records) - Mohammad-Reza Shajarian (Irão)

 

Mohammad-Reza Shajarian (1940-2020), originário do Khorassan (Irão), foi o maior expoente do avaz (a arte tradicional de cantar a poesia clássica persa).  Destacou-se pela sua voz profunda e emotiva, pela sua técnica perfeita e pelo seu papel fundamental na preservação da cultura do seu país. A música de Shajarian é complexa e rica e o cantor e compositor usa a voz para pintar sentimentos profundos e estados de alma. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Shajarian consolidou-se como o maior guardião do Radif (o cancioneiro tradicional do Irão) e tornou-se, indubitavelmente, o intérprete mais influente da música iraniana. Em 1999, a UNESCO concedeu-lhe o Prémio Picasso e, em 2006, a Medalha Mozart. Em 2017, o Los Angeles Times considerou-o como "O maior maestro vivo da música clássica persa".



Nedaye Eshgh”, frequentemente grafado como Nedoye Eshgh, foi editado por Mohammad-Reza Shajarian como um single isolado no final de 2019, ao contrário dos seus monumentais álbuns conceituais gravados ao vivo ou em estúdio, com instrumentos puramente tradicionais persas (como o tar, o santoor e o kamancheh). Este tema possui uma importância singular e altamente atípica na discografia do mestre da música clássica persa, tanto mais que representa uma das raríssimas vezes em que o canto avaz (tradicional e improvisado) foi oficialmente fundido com a música ambient e eletrónica, através de uma colaboração e remistura com o projeto Seventh Soul. Serviu para Shajarian como uma ponte moderna para apresentar a poesia mística e o canto clássico a uma nova geração de ouvintes iranianos. O poema aborda o "chamamento do amor" e a ideia de que todos os seres humanos provêm da mesma fonte divina. Ouvintes ocidentais que não compreendem o idioma farsi conseguem absorver o impacto emocional do tema, graças à entrega vocal emotiva de Shajarian, que transmite a urgência e a devoção contidas nas palavras do célebre poeta persa Hafez, do século XIV.





quarta-feira, 1 de julho de 2026

18. “The Host of Seraphim” (1988, 4AD) - Dead Can Dance (Austrália)

 

Os Dead Can Dance são um famoso duo musical de culto formado em Melbourne, na Austrália, em 1981, composto por Lisa Gerrard e Brendan Perry. A banda mudou-se para Londres, no ano seguinte, engrossando os quadros da carismática editora independente 4AD. Fundindo, ao longo dos tempos, géneros musicais tão diferentes como a pop, a folk, música medieval e renascentista, ritmos tribais e inspirações vindas um pouco de todo o mundo, os Dead Can Dance criaram peças de uma beleza intemporal, fluida e etérea, a maior parte delas coroadas pela voz mágica de Lisa Gerrard. Considerado pioneiro no subgénero neoclassical darkwave, o duo separou-se em 1998, mas juntou-se várias vezes para digressões mundiais e lançou novos álbuns, como “Anastasis” (2012) e “Dionysus” (2018).



“The Host of Seraphim”, o tema de abertura do álbum “The Serpent's Egg” (1988), é o mais emblemático e reconhecido dos Dead Can Dance. A obra destaca-se pela sua atmosfera épica, espiritual e fúnebre, misturando cantos operísticos e instrumentação gótica. O título remete diretamente aos serafins (seres celestiais ou anjos da mais alta ordem na tradição judaico-cristã), com a intenção de evocar uma sensação de transcendência e pureza. Curiosamente, enquanto a melodia soa divina, a letra escrita por Brendan Perry aborda o desencanto, a desilusão amorosa e o peso de expetativas frustradas numa relação. Lisa Gerrard usa a voz como um instrumento e não canta palavras reais, mas sim uma linguagem inventada (glossolalia), o que reforça o tom épico e místico do tema. Frequentemente descrita como uma experiência sonora trascendental que evoca a vastidão da morte e do divino, "The Host of Seraphim" é aclamada pela crítica como uma obra-prima gótica e etérea, tendo ganho fama mundial ao integrar a banda sonora do aclamado documentário visual Baraka (1992), de Ron Fricke. O prestigiado AllMusic considera o tema “tão incrivelmente bom que a única reação possível é o puro deslumbramento.”