sexta-feira, 29 de maio de 2026

12. “Moșule, Te-aș Întreba” (Electrecord, 1979) - Dona Dumitru Siminică (Roménia)

 

Dona Dumitru Siminică (13/09/1926 – 27/11/1979), nascido em Târgoviște, perto de Bucareste (Roménia), era um violinista e cantor, com voz de falsete, andrógina e perturbadora, um "instrumento" perfeito, afinado e com um timbre magnífico. Siminică revelou-se um dos mais importantes representantes da música de lăutari (tradicional cigana da Roménia). Quando cantava "cântece de pahar" (canções de beber), "cântece de jale" (lamentos) ou "cântece de dragoste" (canções de amor), Dona Dumitru Siminică oferecia consolo aos solitários, curava as feridas dos apaixonados e preparava os recém-apaixonados para o fim do seu amor. As suas gravações contam com o acompanhamento virtuoso do țambal (cimbalo), violino e contrabaixo, típicos dos tarafuri (bandas lăutari) de Bucareste.


   

"Moșule, Te-Aș Întreba" é uma obra clássica da muzică lăutărească, que se tornou celebrizada pela voz icónica de Dona Dumitru Siminică. Pode ser encontrada em nove compilações, nomeadamente nas conhecidas “Sounds From a Bygone Age · Vol. 3” (2006, Asphalt Tango) e “Inel inel de aur” (1979 e 2003, Electrecord). A letra da canção assume a forma de um diálogo do intérprete com um homem idoso (moșule) e aborda a dor do abandono amoroso e a busca desesperada de um homem pela sua esposa que fugiu. Adornada por solos instrumentais melódicos de violino e acordeão, e interpretada no falsete agudo, melancólico e quase etéreo de Siminică, esta canção é um exemplo perfeito do fatalismo e da profunda paixão sofrida da tradição lăutărească. Enquadra-se no género "cântece de pahar", misturando elementos do folclore tradicional romeno com a expressividade visceral da música cigana (Romani folk). Os especialistas consideram que a canção consegue transmitir a essência da doină (uma melancolia profunda e tipicamente romena, semelhante ao fado português ou ao blues), sem esforço aparente. Em suma, "Moșule, Te-Aș Întreba" não é vista apenas como uma canção de entretenimento de taberna (“muzică de mahala”), mas sim como um monumento de melancolia existencial e arte vocal pura dentro do panorama musical da Europa de Leste.





sábado, 23 de maio de 2026

11. “1.5 h” (Jaro 2008 / Kayax 2009) - Kapela ze Wsi Warszawa / Warsaw Village Band (Polónia)


O grupo polaco Kapela ze Wsi Warszawa, conhecido no ocidente por Warsaw Village Band, constituído em 1997 por seis jovens músicos que descobriram a magia dos antigos instrumentos e dos antigos estilos vocais, produz um tipo de música a que chamam "hardcore folk", um canto em forma de grito, usado no passado pelos pastores polacos. Instrumentos de cordas a soar como trombetas francesas, tambores furiosos, trance, improvisação e elementos da música das raízes são utilizados com entusiasmo e paixão pelos elementos do grupo, que adoram viajar pela Polónia e pelo mundo para transmitir à sua própria geração os estilos musicais dos antigos. De entre os instrumentos tradicionais que utilizam, saliente-se a quase extinta "Suka", um tipo único de rabeca polaca do séc. XVI, tocada com as unhas. De realçar, ainda, na Kapela ze Wsi Warszawa, a criação de ritmos a partir de dois tambores, o que é muito pouco comum em qualquer tipo de música folk.



“1.5 h”, ou “1,5h”, faz parte do alinhamento original do aclamado álbum “Infinity” (Jaro 2008 / Kayax 2009), em que a Warsaw Village Band, pela primeira vez, apresentava composições não tradicionais. O tema refere-se, segundo a cosmologia tradicional explorada pela banda, ao tempo exato que a alma humana demora a separar-se do corpo imediatamente após o último suspiro. Evoca, assim, esse estado de suspensão, onde a pessoa já não pertence à Terra, mas ainda não cruzou completamente para o "infinito", mas, de forma sublime, a Warsaw Village Band transforma o que poderia ser uma contagem decrescente sombria numa celebração mística da libertação da alma. Ao misturar elementos da tradição polaca com arranjos contemporâneos e experimentais, caraterísticos do estilo "hardcore folk" da banda, e ao incluir vozes sobrepostas que criam camadas corais transcendentais, soando "sepulcrais" e de uma densidade arrepiante, a faixa apoia-se num ritmo tenso e num pulso hipnótico e mergulha num transe sonoro carregado de mistério. De acordo com as recensões da Creative Loafing Charlotte, “1.5 h” consegue capturar e homenagear com maestria a tradição polaca Klezmer (música judaica do Leste Europeu) e entrelaçar essa herança histórica com o tradicional formato de "pergunta e resposta" dos Cárpatos, sem que a música perca a sua identidade contemporânea.




domingo, 17 de maio de 2026

10. “Szelem Szelem” (1970, Jugoton) - Esma Redzepova & Ensemble Teodosievsky (Macedónia)

 

Produto de uma família rom (cigana) muçulmana e judia (filha de mãe turca e pai sérvio), Esma Redžepova (08/08/1943 – 11/12/2016) tornou-se numa icónica cantora, compositora e ativista da Macedónia, onde nasceu. Conhecida globalmente como a "Rainha dos Ciganos", destacou-se pela sua voz poderosa (uma das 50 maiores vozes do planeta, segundo a revista National Public Radio) e por popularizar a música tradicional cigana e balcânica, a nível mundial. O sucesso de Esma está intrinsecamente ligado a Stevo Teodosievski, um conceituado compositor, arranjador e líder do Ansambl Teodosievski, que se tornou mentor, diretor musical e, mais tarde, o marido de Esma. Sob a direção de Stevo, criaram o Ensemble Teodosievski, que se tornou num dos grupos musicais mais populares e influentes da antiga Jugoslávia. O grupo combinava a autenticidade da música cigana e macedónia com elementos da pop e coreografias teatrais.

“Szelem Szelem”, frequentemente escrito como “Dzelem Dzelem”, “Djelem Djelem ou “Gelem Gelem”, é uma canção tradicional cigana com letra escrita pelo músico e compositor jugoslavo Žarko Jovanović, em 1949. Sob o título original de “Gelem, Gelem” ("Andei, Andei"), esta composição foi adotada como o hino oficial do povo cigano em 1971, durante o primeiro Congresso Mundial Romani. Aborda as migrações, as perseguições históricas sofridas pelo povo Romani (particularmente o Porajmos, a tentativa de extermínio deste grupo étnico-cultural minoritário da Europa Central, perpetrado pelo regime nazi) e a busca por união. A versão de Esma Redžepova destaca-se pelo seu alcance vocal dramático (cujo refrão reflete tanto a dor da perseguição, quanto a alegria de reencontrar a comunidade e celebrar a própria cultura), mas também pela hipnótica instrumentação de sopros e acordeão, típica dos Balcãs. Este clássico da música cigana, que celebra a identidade, o sofrimento histórico e a resiliência do povo Romani pode ser ouvido no registo “Tu Me Duj Džene” (2008, Mister Company), nas antologias da Network Medien, “Road of the Gypsies: L'Épopée Tzigane” (1996), “Flammes Du Cœur: Gypsy Queens” (1999) e “Emociones: 25 Years Network” (2005), bem como na da Accords-Croisés, “Mon Histoire/ My Story” (2007).


quinta-feira, 14 de maio de 2026

9. “Srpski polijelej – Servikos/ Polieleos Servikos” (1987, PGP RTs) - Dragoslav Pavle Aksentijević (Sérvia)


Nascido a 20 de abril de 1942, em Belgrado, Dragoslav Pavle Aksentijević tem-se dedicado à pintura inspirada nos ícones dos antigos frescos bizantinos e sérvios, mas também à pesquisa, preservação e divulgação da música antiga espiritual. Tornou-se líder do Zapis Music Group, mas foi a solo que o tenor se notabilizou, sobretudo, na interpretação da música medieval, bizantina ortodoxa e étnica dos Balcãs, principalmente da Sérvia. 


“Srpski polijelej – Servikos” (“Polieleos Servikos”), o mais emblemático tema de Dragoslav, está incluído em “Muzika stare Srbije/ Music of Old Serbia” (PGP RTs, 1987), um álbum composto por cantos sacros dos séculos XIV ao XVIII, bem como nas compilações “Narodna – Music from Albania, Croatia, Macedonia and Serbia” (Touch, 1988) e “Global Meditation” (Ellipsis Arts, 1992). Trata-se de um canto litúrgico ortodoxo do século XV, composto por Isaija Srbin (um importante monge, compositor e calígrafo, que trabalhou na transição cultural após a queda do Estado sérvio medieval sob o domínio otomano). Aksentijević transcreveu a música diretamente de manuscritos antigos e combinou a pesquisa científica com a tradição oral viva dos mosteiros ortodoxos. Interpreta a melodia principal baseada em neumas antigos (elementos básicos do sistema de notação musical utilizado na Europa medieval), acompanhado por um "íson" (uma nota pedal vocal contínua que mantém a tonalidade de fundo).




sábado, 9 de maio de 2026

8. “Ave Maria (Match Girl Mix)” (1995, Roux, Japão) - Vyatcheslav Kagan-Paley (Bielorrússia)

 

Vyatcheslav Kagan-Paley, também conhecido por Slava, é um cantor nascido em 1964 na Bielorrússia (na altura fazendo parte da União Soviética) e radicado em Israel, a partir de 2000. Contratenor, alto e barítono, Kagan-Paley é celebrado pela sua ampla extensão vocal e repertório eclético que abrange música sacra barroca, lieder românticos, composições russas e óperas contemporâneas. Estudou violino e piano em Gomel, local de nascimento, continuou os estudos no Conservatório Estatal Bielorrusso de Minsk, e iniciou a carreira de canto na Capela Académica da Bielorrússia, em 1987. Focando-se na música clássica, Kagan-Paley estabeleceu-se como um artista único, frequentemente associado a interpretações que exigem um alcance vocal invulgar. Críticos e ouvintes especializados descrevem a voz de Slava como "única", "magnífica" e dotada de uma espiritualidade profunda.


“Ave Maria (Match Girl Mix)”, incluída no registo “Due Impressione (Ave Maria Remix)” (1995, Roux), faz parte de um projeto de remixes para o mercado japonês, onde Slava teve um sucesso considerável. Atribuída a Giulio Caccini (compositor, professor, cantor, instrumentista e escritor italiano do final do Renascimento e início do Barroco), esta versão específica na verdade foi composta pelo músico Vladimir Vavilov (guitarrista, alaudista e compositor russo/soviético), por volta de 1970. A composição faz referência ao conto de 1848 "The Little Match Girl" (A Pequena Vendedora de Fósforos), do poeta e escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, reforçando a estética melancólica e etérea típica de Slava e do selo Roux. Foca-se na "impressão" e no clima nostálgico/ onírico, característica marcante da voz do contratenor, que transita magistralmente entre o registo de soprano e contralto.