Natural de Tuva,
Sainkho Namtchylak é uma representante da nova tendência batizada pela dupla
Joseph Celli/Jin Hi Kim como No World, isto é, música contemporânea,
criativa e aberta, que abrange jazz avant-garde, eletrónica e
influências da música tradicional. Enraizada na terra, não devido a qualquer
propósito conservacionista, mas porque toda a criação musical deve ter em conta
o seu passado e a sua geografia, a voz de Sainkho evidencia uma forte
componente expressiva, por vezes à beira do sussurro, outras próxima do grito
ou do gemido. Sainkho utiliza a garganta como um instrumento e é exímia a
cantar em overtone. Embora as influências siberianas dominem, exercem
impacto na voz de Sainkho as raízes turcas compartilhadas com a Mongólia, os
Uigures de Xinjiang e os estados da Ásia Central; os grupos étnicos nómadas da
Sibéria e outros grupos minoritários do oeste dos Montes Urais; e as populações
provenientes da Ucrânia e Tartaristão estabelecidas em Tuva.
“Inuit Wedding”, incluído
no registo “Naked Spirit” (1998, Amiata Records), é uma das faixas mais
emblemáticas de Sainkho Namtchylak. Trata-se de uma canção inteiramente vocal e
instrumental baseada em técnicas ancestrais de improvisação, não possuindo, por
isso, um texto lírico convencional (letras com palavras e significado
linguístico). O que se ouve, na verdade, são sons vocais rítmicos, arquejos,
inspirações e expirações profundas combinadas com sons guturais alternados. Tradicionalmente,
este canto era um jogo de respiração e entretenimento focado na cumplicidade
entre as mulheres Inuit (indígenas originárias das regiões árticas), enquanto
os homens saíam para caçar. As referências estéticas da faixa evocam a
celebração de um casamento tradicional e místico através de elementos sonoros
minimalistas. Um tambor dita uma pulsação lenta, simulando o ritmo cardíaco ou
passos no gelo e chocalhos de madeira e drones etéreos criam uma textura
de transe e conexão com a imensidão do Ártico. A faixa é descrita pela crítica
especializada como uma peça "perigosamente selvagem" (dangerously
wild) que mistura o canto difónico tradicional (throat singing) com
experimentação avant-garde, improvisação livre e paisagens sonoras
inspiradas na natureza.














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