segunda-feira, 6 de julho de 2026

19. “Nedaye Eshgh” (2019, Tarr Records) - Mohammad-Reza Shajarian (Irão)

 

Mohammad-Reza Shajarian (1940-2020), originário do Khorassan (Irão), foi o maior expoente do avaz (a arte tradicional de cantar a poesia clássica persa).  Destacou-se pela sua voz profunda e emotiva, pela sua técnica perfeita e pelo seu papel fundamental na preservação da cultura do seu país. A música de Shajarian é complexa e rica e o cantor e compositor usa a voz para pintar sentimentos profundos e estados de alma. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Shajarian consolidou-se como o maior guardião do Radif (o cancioneiro tradicional do Irão) e tornou-se, indubitavelmente, o intérprete mais influente da música iraniana. Em 1999, a UNESCO concedeu-lhe o Prémio Picasso e, em 2006, a Medalha Mozart. Em 2017, o Los Angeles Times considerou-o como "O maior maestro vivo da música clássica persa".



Nedaye Eshgh”, frequentemente grafado como Nedoye Eshgh, foi editado por Mohammad-Reza Shajarian como um single isolado no final de 2019, ao contrário dos seus monumentais álbuns conceituais gravados ao vivo ou em estúdio, com instrumentos puramente tradicionais persas (como o tar, o santoor e o kamancheh). Este tema possui uma importância singular e altamente atípica na discografia do mestre da música clássica persa, tanto mais que representa uma das raríssimas vezes em que o canto avaz (tradicional e improvisado) foi oficialmente fundido com a música ambient e eletrónica, através de uma colaboração e remistura com o projeto Seventh Soul. Serviu para Shajarian como uma ponte moderna para apresentar a poesia mística e o canto clássico a uma nova geração de ouvintes iranianos. O poema aborda o "chamamento do amor" e a ideia de que todos os seres humanos provêm da mesma fonte divina. Ouvintes ocidentais que não compreendem o idioma farsi conseguem absorver o impacto emocional do tema, graças à entrega vocal emotiva de Shajarian, que transmite a urgência e a devoção contidas nas palavras do célebre poeta persa Hafez, do século XIV.





quarta-feira, 1 de julho de 2026

18. “The Host of Seraphim” (1988, 4AD) - Dead Can Dance (Austrália)

 

Os Dead Can Dance são um famoso duo musical de culto formado em Melbourne, na Austrália, em 1981, composto por Lisa Gerrard e Brendan Perry. A banda mudou-se para Londres, no ano seguinte, engrossando os quadros da carismática editora independente 4AD. Fundindo, ao longo dos tempos, géneros musicais tão diferentes como a pop, a folk, música medieval e renascentista, ritmos tribais e inspirações vindas um pouco de todo o mundo, os Dead Can Dance criaram peças de uma beleza intemporal, fluida e etérea, a maior parte delas coroadas pela voz mágica de Lisa Gerrard. Considerado pioneiro no subgénero neoclassical darkwave, o duo separou-se em 1998, mas juntou-se várias vezes para digressões mundiais e lançou novos álbuns, como “Anastasis” (2012) e “Dionysus” (2018).



“The Host of Seraphim”, o tema de abertura do álbum “The Serpent's Egg” (1988), é o mais emblemático e reconhecido dos Dead Can Dance. A obra destaca-se pela sua atmosfera épica, espiritual e fúnebre, misturando cantos operísticos e instrumentação gótica. O título remete diretamente aos serafins (seres celestiais ou anjos da mais alta ordem na tradição judaico-cristã), com a intenção de evocar uma sensação de transcendência e pureza. Curiosamente, enquanto a melodia soa divina, a letra escrita por Brendan Perry aborda o desencanto, a desilusão amorosa e o peso de expetativas frustradas numa relação. Lisa Gerrard usa a voz como um instrumento e não canta palavras reais, mas sim uma linguagem inventada (glossolalia), o que reforça o tom épico e místico do tema. Frequentemente descrita como uma experiência sonora trascendental que evoca a vastidão da morte e do divino, "The Host of Seraphim" é aclamada pela crítica como uma obra-prima gótica e etérea, tendo ganho fama mundial ao integrar a banda sonora do aclamado documentário visual Baraka (1992), de Ron Fricke. O prestigiado AllMusic considera o tema “tão incrivelmente bom que a única reação possível é o puro deslumbramento.”





segunda-feira, 29 de junho de 2026

17. “Alleluja” (1997, Erdenklang) - Vox (Bulgária / Alemanha / Líbano)

 

O projeto musical Vox, fundado em 1989 e dirigido pelo músico, musicólogo e compositor búlgaro Vladimir Ivanoff, é um prestigiado agrupamento de world music e música antiga, conhecido por ter inventado o conceito de música eletrónica medieval. O projeto é amplamente referenciado pela sua abordagem vanguardista na reinterpretação da música da Idade Média e da tradicional europeia, interligando-as com linguagens sonoras contemporâneas e pós-modernas. Seguindo a linha filosófica do Ensemble Sarband, o outro aclamado projeto de Ivanoff, os Vox procuram pontos de contacto e diálogos espirituais entre as culturas do Mediterrâneo, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islão. À parafernália de instrumentos antigos e étnicos (sanfona, trompete árabe medieval, bombarda, alaúde, órgão de foles, santur, entre outros), juntam-se os samplers e os sintetizadores, mas também as vozes femininas inseridas no espírito e nas normas, sempre subjetivas da música da “Idade das Trevas”.




“Alleluja” é a faixa mais fascinante do projeto Vox e carrega importantes referências históricas, religiosas e estruturais. Foi lançada originalmente em 1997 no álbum “X Chants from the Christian Arab Tradition” (pela etiqueta Erdenklang), reeditado em 1999 sob o título "Divine Rites" (pela Hearts of Space). A principal referência cultural da canção é a tradição litúrgica cristã do Médio Oriente. "Alleluja" baseia-se em cantos sagrados antigos das igrejas orientais primitivas (como as comunidades Maronitas e Melquitas), da região da Síria e do Líbano. A interpretação vocal central é da aclamada cantora lírica libanesa Fadia Tomb El-Hage, cuja técnica funde o canto operístico ocidental com as microtonalidades e ornamentações do canto sagrado árabe. A sua voz serve como uma ponte viva e emotiva entre o rigor musicológico de Vladimir Ivanoff e a herança espiritual árabe-cristã.




quarta-feira, 24 de junho de 2026

16. “Dilman” (2024, Music Super Circus) - Karzan Mahmood (feat. Raha Yousefi) (Irão)

 

Karzan Mahmood, nascido em 1981 na cidade de Slemani (Sulaimani), na região do Curdistão, a residir em Estocolmo (Suécia) desde 2005, é um talentoso compositor e maestro, amplamente reconhecido pelo seu trabalho na criação de bandas sonoras para cinema, televisão, teatro e videojogos. Com uma carreira marcada pela fusão única entre a música tradicional oriental e a música clássica ocidental, ganhou grande projeção internacional ao colaborar de perto com o aclamado realizador iraniano Mohammad Rasoulof, para quem produziu a banda sonora do filme “The Seed of the Sacred Fig” (2024). O seu trabalho nesta obra valeu-lhe uma nomeação para os prestigiados Hollywood Music in Media Awards. Atualmente, Karzan Mahmood continua ativo a partir do seu estúdio na Suécia, criando músicas que cruzam fronteiras culturais e que trazem uma forte carga emocional e política ao cinema contemporâneo.



“Dilman” é uma canção composta por Karzan Mahmood, que conta com a participação da cantora canadiano-iraniana Raha Yousefi, especialista na música clássica persa. Faz parte da banda sonora oficial do aclamado filme político "The Seed of the Sacred Fig" (2024), realizado pelo cineasta iraniano Mohammad Rasoulof. Como reflexo direto do filme onde se insere, a música aborda temas profundos de resistência, opressão política e a dor da perda de liberdade. Na língua curda e em certos dialetos da região, a palavra “Dilman” (ou variações próximas) está ligada ao "coração", à "alma" ou a um apelo emocional íntimo, funcionando como um lamento ou uma expressão de angústia e afeto profundo. A faixa evoca o ambiente de contestação social no Irão, especificamente os protestos liderados por mulheres (movimento "Mulher, Vida, Liberdade"), que servem de pano de fundo à narrativa do filme. A interpretação vocal de Raha Yousefi, combinada com a composição instrumental dramática de Mahmood, transmite uma atmosfera de sofrimento e luto pelas vítimas da repressão estatal, mas também uma força latente de sobrevivência e recusa em ser silenciado.





sábado, 13 de junho de 2026

15. “Saudade do meu Amor” (2004, Most Records) - Taffetas (Guiné-Bissau / Suíça)

 

Os Taffetas foram um aclamado projeto de World Fusion, formado na Suíça em 2003, que se destacou pela mistura da música tradicional da região Mandinga com nuances de jazz cigano e folk europeu. Baseando-se, sobretudo, nas belíssimas texturas e nos rendilhados da kora, a harpa de 23 cordas da África Ocidental, os Taffetas teceram sons com pedaços de jazz, piscadelas às ragas indianas, aproximações aos blues, namoros às mornas e casamentos com a música erudita europeia. A banda, atualmente inativa, começou originalmente como um trio, constituído por Ibrahima Galissa (da Guiné-Bissau), na kora; Marc Liebeskind (da Suíça), na guitarra e sitar; e Christophe Erard (da Suíça), no baixo e contrabaixo. Posteriormente, o senegalês Nana Cissokho (kora e voz) substituiu Galissa e o projeto passou a incluir, ainda, Fatoumata Dembélé, do Burkina Faso (percussão e voz). Em 2004, os Taffetas começaram por editar um registo notável sem título para a Most Records (reeditado dois anos depois pela Rasa Music com o nome de “Fanta”) e, em 2006, lançaram “Caméléon” para a Asmia, ambos elogiados pela crítica especializada (nomeadamente pelas revistas britânicas Songlines e Mojo).



“Saudade do meu Amor” é o tema mais fascinante dos Taffetas. Fazendo parte do alinhamento do primeiro álbum do grupo, “Taffetas” (bem como de quatro posteriores versões desse álbum, duas delas intituladas “Fanta”), e incluído na compilação “fRoots 22” (2004, Folk Roots), trata-se de uma belíssima peça instrumental. Nela, os Taffetas cruzam elegantemente a kora com a guitarra acústica e o baixo, mergulham em variadíssimos estilos musicais e em diferentes culturas e tecem uma riquíssima fusão global. Como uma paisagem de sonho, a faixa reflete intensidade emocional, uma certa solidão iluminada e um turbilhão de emoções, que traduzem perfeitamente o vazio, a contemplação, o amor e a saudade. A crítica especializada classifica a faixa como uma fusão bela e serena, elogiando a forma inteligente como une elementos da música africana e mediterrânica.




quarta-feira, 10 de junho de 2026

14. “Secondo Quadro (Ben è crudele e spietoso)” (2003, Shéhérazade) - Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri (Marrocos)

 

O projeto "Incontro a Tangeri" (Shéhérazade, 2003), da Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri (Marrocos), distinguido com um Prémio especial do CICT da UNESCO, pretende perpetuar a magnífica e ancestral tradição, nascida na época áurea da Andaluzia, em que cristãos, judeus e muçulmanos criaram poesia e música numa simbiose e harmonia excecionais. "Incontro a Tangeri" está subdividido em quadros musicais, compostos por fragmentos, partes e estrofes de três noubas arabo-andalusas cantadas pelo marroquino Younes Chadigan, de três romances sefarditas cantados por Esti Kenan Ofri (uma israelita de origem italiana) e de duas peças da música antiga cristã cantadas por Stefano Albarello (o italiano que lidera o Ensemble Cantilena Antiqua). Os arranjos de Jamal Ouassini, o marroquino que dirige a Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri, permite momentos livres que levam os três cantores a evidenciar o encontro das três culturas e religiões (cristã, judaica e árabe) e a sua origem comum, uma completa experiência espiritual de aproximação e de diálogo entre civilizações.



“Ben è crudele e spietoso” é um hino de profunda devoção e meditação sobre o amor de Cristo, o sofrimento na cruz e o mistério da Encarnação. Faz parte do célebre manuscrito medieval Laudario di Cortona (séc. XIII), a mais antiga fonte conhecida de música escrita em língua italiana e a única do seu género que sobreviveu com notação musical. A lauda (hino religioso de louvor, cantado em italiano popular) é interpretada por Stefano Albarello, superiormente acompanhado por Nour Eddine Acha no nai, um dos instrumentos de sopro mais antigos do mundo. A voz do cantor do Ensemble Cantilena Antiqua atua como uma ponte que liga o misticismo dos cânticos de confrarias italianas à sonoridade arabo-andalusa da orquestra marroquina. As raízes comuns e as escalas (como o maqam árabe) harmonizam-se com o tom modal da música medieval cristã ocidental e o resultado é verdadeiramente fascinante.






quinta-feira, 4 de junho de 2026

13. "Be Mankan" (World Circuit, 2005) - Ali Farka Touré & Toumani Diabaté (Mali)


Ali Ibrahim "Farka" Touré (1939 - 2006) foi um cantor e guitarrista maliano e um dos mais renomados músicos do continente africano. A sua música é amplamente considerada como representando um ponto de interseção entre a tradicional do Mali e o blues americano. Toumani Diabaté (1965-2024), também maliano, descendente dos griots mandinka (os contadores de histórias do ocidente africano), foi considerado o maior tocador da kora, uma espécie de harpa de 21 cordas. Juntos, criaram os fabulosos álbuns "In the Heart of the Moon" (World Circuit, 2005), vencedor de um grammy, e "Ali & Toumani" (World Circuit, 2010), gravado pouco antes da morte de Ali Farka Touré. 


  


"Be Mankan" é uma versão instrumental de um antigo cântico tradicional Mandé dedicado a Alpha Yaya Diallo (um influente rei e guerreiro do final do século XIX, de Fouta Djallon, na Guiné-Conacri), que evoca um provérbio sobre como o amor e a esperança fazem as lágrimas caírem face à perda. Sendo a faixa mais marcante da parceria entre Ali Farka Touré e Toumani Diabaté, faz parte do alinhamento do álbum “Ali & Toumani” e tornou-se conhecida pelo seu tom doce e acústico, misturando o estilo "blues do deserto" com a técnica de harpa africana. Complexas tapeçarias musicais, tecidas através de sinuosos e dialogantes improvisos, entrecruzam-se com uma elegância e espiritualidade transcendentes. O título, na língua Bambara, que se traduz como "A voz de todos" ou "O som da união", apela à paz, à reconciliação e à unidade entre as diferentes comunidades do Mali. Os críticos descrevem o tema como possuindo uma "graça e pose clássicas", em que a kora de Diabaté é tocada com grande contenção e equilíbrio, permitindo que a guitarra de Touré se destaque com serenidade, em vez de recorrer aos habituais arpejos rápidos e virtuosos do instrumento. 

 



sexta-feira, 29 de maio de 2026

12. “Moșule, Te-aș Întreba” (Electrecord, 1979) - Dona Dumitru Siminică (Roménia)

 

Dona Dumitru Siminică (13/09/1926 – 27/11/1979), nascido em Târgoviște, perto de Bucareste (Roménia), era um violinista e cantor, com voz de falsete, andrógina e perturbadora, um "instrumento" perfeito, afinado e com um timbre magnífico. Siminică revelou-se um dos mais importantes representantes da música de lăutari (tradicional cigana da Roménia). Quando cantava "cântece de pahar" (canções de beber), "cântece de jale" (lamentos) ou "cântece de dragoste" (canções de amor), Dona Dumitru Siminică oferecia consolo aos solitários, curava as feridas dos apaixonados e preparava os recém-apaixonados para o fim do seu amor. As suas gravações contam com o acompanhamento virtuoso do țambal (cimbalo), violino e contrabaixo, típicos dos tarafuri (bandas lăutari) de Bucareste.


   

"Moșule, Te-Aș Întreba" é uma obra clássica da muzică lăutărească, que se tornou celebrizada pela voz icónica de Dona Dumitru Siminică. Pode ser encontrada em nove compilações, nomeadamente nas conhecidas “Sounds From a Bygone Age · Vol. 3” (2006, Asphalt Tango) e “Inel inel de aur” (1979 e 2003, Electrecord). A letra da canção assume a forma de um diálogo do intérprete com um homem idoso (moșule) e aborda a dor do abandono amoroso e a busca desesperada de um homem pela sua esposa que fugiu. Adornada por solos instrumentais melódicos de violino e acordeão, e interpretada no falsete agudo, melancólico e quase etéreo de Siminică, esta canção é um exemplo perfeito do fatalismo e da profunda paixão sofrida da tradição lăutărească. Enquadra-se no género "cântece de pahar", misturando elementos do folclore tradicional romeno com a expressividade visceral da música cigana (Romani folk). Os especialistas consideram que a canção consegue transmitir a essência da doină (uma melancolia profunda e tipicamente romena, semelhante ao fado português ou ao blues), sem esforço aparente. Em suma, "Moșule, Te-Aș Întreba" não é vista apenas como uma canção de entretenimento de taberna (“muzică de mahala”), mas sim como um monumento de melancolia existencial e arte vocal pura dentro do panorama musical da Europa de Leste.





sábado, 23 de maio de 2026

11. “1.5 h” (Jaro 2008 / Kayax 2009) - Kapela ze Wsi Warszawa / Warsaw Village Band (Polónia)


O grupo polaco Kapela ze Wsi Warszawa, conhecido no ocidente por Warsaw Village Band, constituído em 1997 por seis jovens músicos que descobriram a magia dos antigos instrumentos e dos antigos estilos vocais, produz um tipo de música a que chamam "hardcore folk", um canto em forma de grito, usado no passado pelos pastores polacos. Instrumentos de cordas a soar como trombetas francesas, tambores furiosos, trance, improvisação e elementos da música das raízes são utilizados com entusiasmo e paixão pelos elementos do grupo, que adoram viajar pela Polónia e pelo mundo para transmitir à sua própria geração os estilos musicais dos antigos. De entre os instrumentos tradicionais que utilizam, saliente-se a quase extinta "Suka", um tipo único de rabeca polaca do séc. XVI, tocada com as unhas. De realçar, ainda, na Kapela ze Wsi Warszawa, a criação de ritmos a partir de dois tambores, o que é muito pouco comum em qualquer tipo de música folk.



“1.5 h”, ou “1,5h”, faz parte do alinhamento original do aclamado álbum “Infinity” (Jaro 2008 / Kayax 2009), em que a Warsaw Village Band, pela primeira vez, apresentava composições não tradicionais. O tema refere-se, segundo a cosmologia tradicional explorada pela banda, ao tempo exato que a alma humana demora a separar-se do corpo imediatamente após o último suspiro. Evoca, assim, esse estado de suspensão, onde a pessoa já não pertence à Terra, mas ainda não cruzou completamente para o "infinito", mas, de forma sublime, a Warsaw Village Band transforma o que poderia ser uma contagem decrescente sombria numa celebração mística da libertação da alma. Ao misturar elementos da tradição polaca com arranjos contemporâneos e experimentais, caraterísticos do estilo "hardcore folk" da banda, e ao incluir vozes sobrepostas que criam camadas corais transcendentais, soando "sepulcrais" e de uma densidade arrepiante, a faixa apoia-se num ritmo tenso e num pulso hipnótico e mergulha num transe sonoro carregado de mistério. De acordo com as recensões da Creative Loafing Charlotte, “1.5 h” consegue capturar e homenagear com maestria a tradição polaca Klezmer (música judaica do Leste Europeu) e entrelaçar essa herança histórica com o tradicional formato de "pergunta e resposta" dos Cárpatos, sem que a música perca a sua identidade contemporânea.




domingo, 17 de maio de 2026

10. “Szelem Szelem” (1970, Jugoton) - Esma Redzepova & Ensemble Teodosievsky (Macedónia)

 

Produto de uma família rom (cigana) muçulmana e judia (filha de mãe turca e pai sérvio), Esma Redžepova (08/08/1943 – 11/12/2016) tornou-se numa icónica cantora, compositora e ativista da Macedónia, onde nasceu. Conhecida globalmente como a "Rainha dos Ciganos", destacou-se pela sua voz poderosa (uma das 50 maiores vozes do planeta, segundo a revista National Public Radio) e por popularizar a música tradicional cigana e balcânica, a nível mundial. O sucesso de Esma está intrinsecamente ligado a Stevo Teodosievski, um conceituado compositor, arranjador e líder do Ansambl Teodosievski, que se tornou mentor, diretor musical e, mais tarde, o marido de Esma. Sob a direção de Stevo, criaram o Ensemble Teodosievski, que se tornou num dos grupos musicais mais populares e influentes da antiga Jugoslávia. O grupo combinava a autenticidade da música cigana e macedónia com elementos da pop e coreografias teatrais.

“Szelem Szelem”, frequentemente escrito como “Dzelem Dzelem”, “Djelem Djelem ou “Gelem Gelem”, é uma canção tradicional cigana com letra escrita pelo músico e compositor jugoslavo Žarko Jovanović, em 1949. Sob o título original de “Gelem, Gelem” ("Andei, Andei"), esta composição foi adotada como o hino oficial do povo cigano em 1971, durante o primeiro Congresso Mundial Romani. Aborda as migrações, as perseguições históricas sofridas pelo povo Romani (particularmente o Porajmos, a tentativa de extermínio deste grupo étnico-cultural minoritário da Europa Central, perpetrado pelo regime nazi) e a busca por união. A versão de Esma Redžepova destaca-se pelo seu alcance vocal dramático (cujo refrão reflete tanto a dor da perseguição, quanto a alegria de reencontrar a comunidade e celebrar a própria cultura), mas também pela hipnótica instrumentação de sopros e acordeão, típica dos Balcãs. Este clássico da música cigana, que celebra a identidade, o sofrimento histórico e a resiliência do povo Romani pode ser ouvido no registo “Tu Me Duj Džene” (2008, Mister Company), nas antologias da Network Medien, “Road of the Gypsies: L'Épopée Tzigane” (1996), “Flammes Du Cœur: Gypsy Queens” (1999) e “Emociones: 25 Years Network” (2005), bem como na da Accords-Croisés, “Mon Histoire/ My Story” (2007).


quinta-feira, 14 de maio de 2026

9. “Srpski polijelej – Servikos/ Polieleos Servikos” (1987, PGP RTs) - Dragoslav Pavle Aksentijević (Sérvia)


Nascido a 20 de abril de 1942, em Belgrado, Dragoslav Pavle Aksentijević tem-se dedicado à pintura inspirada nos ícones dos antigos frescos bizantinos e sérvios, mas também à pesquisa, preservação e divulgação da música antiga espiritual. Tornou-se líder do Zapis Music Group, mas foi a solo que o tenor se notabilizou, sobretudo, na interpretação da música medieval, bizantina ortodoxa e étnica dos Balcãs, principalmente da Sérvia. 


“Srpski polijelej – Servikos” (“Polieleos Servikos”), o mais emblemático tema de Dragoslav, está incluído em “Muzika stare Srbije/ Music of Old Serbia” (PGP RTs, 1987), um álbum composto por cantos sacros dos séculos XIV ao XVIII, bem como nas compilações “Narodna – Music from Albania, Croatia, Macedonia and Serbia” (Touch, 1988) e “Global Meditation” (Ellipsis Arts, 1992). Trata-se de um canto litúrgico ortodoxo do século XV, composto por Isaija Srbin (um importante monge, compositor e calígrafo, que trabalhou na transição cultural após a queda do Estado sérvio medieval sob o domínio otomano). Aksentijević transcreveu a música diretamente de manuscritos antigos e combinou a pesquisa científica com a tradição oral viva dos mosteiros ortodoxos. Interpreta a melodia principal baseada em neumas antigos (elementos básicos do sistema de notação musical utilizado na Europa medieval), acompanhado por um "íson" (uma nota pedal vocal contínua que mantém a tonalidade de fundo).