domingo, 23 de agosto de 2026

24. “Erau zarzării-nfloriţi” (1975, Electrecord) - Romică Puceanu & Orchestra Florea Cioacă (Roménia)

 

Romică Puceanu (1927–1996), considerada a rainha da canção cigana na Roménia, ficou conhecida como a "Billie Holiday do Leste", graças à sua voz profunda e às suas interpretações de canções de mahala (subúrbios de Bucareste) e canções lăutărească (tradicionais ciganas romenas). Diva corpulenta, tragicamente desaparecida num acidente de carro, Romică Puceanu emergiu como a expressão por excelência de um estilo dolente e fatalista, não destituído de um certo charme exótico. Tornou-se na principal estrela dos restaurantes e salões de festa de Bucareste durante as décadas de 1960 a 1980 e elevou o folclore e as canções de taberna da Roménia a um patamar de expressividade artística comparável aos grandes nomes do jazz.



“Erau zarzării-nfloriţi”, lançado pela primeira vez na Roménia no álbum “Cine Nu Știe Ce-i Doru” (Electrecord, 1975), ganhou projeção internacional graças à sua inclusão na magnífica antologia “Road of the Gypsies: L'Épopée Tzigane” (Network, 1996). Trata-se de uma faixa sublime da música tradicional romena e cigana (muzică lăutărească), resultado da colaboração lendária entre a diva Romică Puceanu e a Orchestra Florea Cioacă. A letra da canção aborda a melancolia da passagem do tempo, a nostalgia da juventude e as desilusões do amor, usando a primavera e a natureza como contrastes para a dor emocional. A voz visceral de Romică transmite uma melancolia profunda e uma alma crua, traços que a consagraram como a rainha da “muzică de mahala”, o estilo de música urbana e folclórica da Roménia. A Orquestra de Florea Cioacă oferece um acompanhamento rico em ornamentos de violino e acordeão, evocando uma sensação de lamento e "cansaço existencial" misturado com uma beleza poética marcante, definindo o som clássico e vibrante da Roménia rural e urbana do século XX.






quinta-feira, 13 de agosto de 2026

23. “Boaimmáš (Rough-legged Buzzard)” (1995, Rockadillo) - Wimme Saari (Finlândia)

 

Wimme Saari, conhecido artisticamente apenas como Wimme, é um dos maiores cantores joik (o canto do povo Sáami, que privilegia a expressão de sentimentos e de emoções, sob a forma de melodias quase demoníacas). É, também, exímio na improvisação e na gestão do arco tímbrico exigido pelo canto gutural do estilo, apresentado a capella ou com a delicada companhia instrumental de clarinete, percussões, cordas e eletrónica. Wimme revolucionou o género ao fundir a espiritualidade e as improvisações vocais do joik tradicional com paisagens sonoras contemporâneas, incluindo música eletrónica, ambient, techno e jazz.



“Boaimmás” (que se traduz do idioma Sáami para o inglês como Rough-legged Buzzard) é o tema mais emblemático de Wimme Saari e foi lançado originalmente no seu aclamado álbum de estreia, “Wimme”, de 1995. O título traduz-se como “Bútio-pálido” (Buteo lagopus), uma ave de rapina ártica e subártica de grande importância na região da Lapónia. A música procura canalizar a essência, o voo e o espírito desta ave através do som, tanto mais que na cultura do povo indígena Sáami, os animais e os elementos da natureza possuem um forte elo espiritual. Para o efeito, Wimme conta com o acompanhamento e a produção de membros do grupo eletrónico finlandês RinneRadio, liderado por Tapani Rinne. A batida eletrónica hipnótica serve de base para as improvisações e assobios característicos de Wimme, que mimetizam os sons do vento e o chamamento da própria ave. "Boaimmás" ajudou a projetar a música Sáami além das fronteiras escandinavas e tornou-se uma referência global de como a música folk tradicional pode coexistir de forma orgânica com a vanguarda eletrónica.





sábado, 1 de agosto de 2026

22. "Paseabase el rey moro" (1997, MA Recordings) - Begoña Olavide (Espanha)

 

A espanhola Begoña Olavide possui o título superior de flauta no Conservatório de Madrid e especializou-se na interpretação do saltério, trabalhando com o alaudista Carlos Paniagua na recuperação dos diferentes modelos da família deste instrumento. Entre outros projetos, Olavide cofundou o prestigiado agrupamento de música antiga Calamus (1980 a 1996); dirigiu o festival Tarab Tánger (Marrocos); foi solista com a Orquestra Nacional de Espanha; colaborou ativamente com referências como Jordi Savall e Montserrat Figueras;  compôs e interpretou música para obras de teatro e realizadores de cinema como Carlos Saura e José María Forqué; realizou cursos de especialização na Holanda, Jugoslávia e Espanha; e aprofundou, durante o período em que viveu em Marrocos (2005 e 2012), os conhecimentos de canto, qanoun e teoria da música arabo-andalusa. Na sua carreira musical a solo, Olavide tem-se destacado, sobretudo, na interpretação de uma música de fusão dos dois estilos mais importantes da Espanha medieval, o cristão e o muçulmano.



“Paseabase el rey moro” faz parte de "Mudejar" (1997, MA Recordings), o segundo registo da virtuosa tocadora de saltério, Begoña Olavide, e insere-se no repertório do romancero viejo tradicional hispânico e da música antiga/mudéjar. O poema narra a conquista da fortaleza de Alhama pelas tropas cristãs em 1482, no contexto da Guerra de Granada. O romancista e historiador Pérez de Hita (1544–1619) referiu-se a este romance como tendo raízes ou influências diretas de cantos fronteiriços hispano-árabes. Begoña Olavide baseou-se no compositor e vihuelista renascentista Luys de Narbaez, o responsável pela primeira versão musical escrita e polifónica conhecida deste tema.  Olavide recorre a um arranjo puramente acústico, misturando a corda pulsada medieval com o saltério, evocando sonoridades arabo-andaluzas. A voz de Begoña adota uma linha melódica fluida, despida de ornamentos excessivos modernos, focando-se na cadência narrativa e emotiva do romance medieval.





domingo, 26 de julho de 2026

21. “In The Gardens Of Armida” (2015, Prikosnovénie) - Irfan (Bulgária)

 

Os Irfan são um coletivo búlgaro formado em Sófia em 2001. O seu nome, resgatado à terminologia Sufi, que em persa e árabe significa “gnosis”, “conhecimento místico” ou “revelação”, induz o seu próprio universo, baseado numa cultura de evocações ancestrais, repleto de referências sagradas e de elementos étnicos. A excecional voz de Denitza Seraphimova, que nos lembra a de Lisa Gerrard (Dead Can Dance), formou-se nos coros das tradicionais misteriosas vozes búlgaras. Denitza é o elemento central de um grupo que funde com grande mestria influências de várias culturas. A música dos Irfan é um convite a uma viagem mística no tempo, uma mensagem poeticamente estendida na linguagem do amor. Apesar da dificuldade em se catalogar a música dos Irfan, os críticos são unânimes em a considerar como uma espécie de fusão das várias músicas étnicas, nomeadamente das tradições búlgara, persa, caucasiana, do Norte de África e do Médio Oriente, fortemente impregnadas pela herança cultural do Império Bizantino e da música medieval ocidental.



“In The Gardens Of Armida”, lançada em 2015 no álbum “The Eternal Return”, evoca um célebre mito literário e artístico ocidental. O título refere-se diretamente ao poema épico do século XVI “Gerusalemme liberata” (Jerusalém Libertada), escrito pelo italiano Torquato Tasso. Na obra, Armida é uma feiticeira pagã que cria um jardim encantado para aprisionar o cavaleiro cruzado Rinaldo através da sedução e de feitiços amorosos, afastando-o dos seus deveres de guerra. "Os Jardins de Armida" tornaram-se uma metáfora universal para a tentação, os prazeres sensuais e a ilusão que paralisam a força de vontade. Fiel ao estilo neoclassical, darkwave e world music dos Irfan, a faixa utiliza uma atmosfera mística e melancólica que recria sonoramente esse ambiente de feitiçaria, isolamento e beleza hipnótica do jardim medieval.











quinta-feira, 16 de julho de 2026

20. “Inna l malak (L'ange cria la resurrection/ The angel shouted resurrection)” (2008, Univerkey Productions) - Soeur Marie Keyrouz (Líbano)

 

Marie Keyrouz é uma freira libanesa (nascida em 1963, em Deir Al-Ahmar) e cantora multilingue de música religiosa, especializada em canções sagradas e cânticos do Médio Oriente. Criada na tradição católica oriental da Igreja Maronita, estudou música e antropologia religiosa em várias universidades e, mais tarde, emitiu os seus votos na Igreja Católica Grega Melquita. Juntando a sua devoção religiosa e os seus talentos musicais e cantando em línguas como o libanês, o grego, o siríaco e o árabe, Keyrouz tornou-se conhecida como uma das primeiras sopranos do mundo na tradição da música de igreja oriental. Gravou a maior parte dos seus álbuns juntamente com o seu grupo, o Ensemble de la Paix, que teve origem em 1984. Entretanto, tendo-se mudado para Paris, anos antes, para completar os seus estudos universitários, lançou e dirigiu o L'Instituit International de Chant Sacré - também conhecido como o Instituto Nacional de Música Sacra - em 1994.


   

“Inna l malak (L'ange cria la résurrection/ The angel shouted resurrection)” faz parte do alinhamento de “La Passion dans les Eglises Orientales” (2008, Univerkey Productions), um álbum cujos benefícios da sua venda foram canalizados para a ajuda à escolarização das crianças desfavorecidas do Líbano. Gravado originalmente no seu aclamado álbum de estreia “Chant Byzantin” (1989, Harmonia Mundi) e presente em coletâneas posteriores, o tema “Inna l malak”, que se pode traduzir por "O Anjo exclamou", é baseado na 9ª Ode do Cânone do Domingo de Páscoa, um texto sagrado atribuído a São João Damasceno (século VIII). Trata-se de um cântico litúrgico da Igreja Católica Grego-Melquita (cristãos orientais de rito bizantino), cantado inteiramente em língua árabe, que descreve o momento evangélico da Ressurreição de Jesus Cristo sob a perspetiva da Virgem Maria. Marie Keyrouz interpreta o tema usando técnicas do canto bizantino oriental, caracterizado por microtons, ornamentações vocais rápidas (vocal flourishes) e modulações melódicas complexas, aliando os seus profundos conhecimentos musicológicos do canto sacro a uma voz com um timbre de rara beleza e espiritualidade.





segunda-feira, 6 de julho de 2026

19. “Nedaye Eshgh” (2019, Tarr Records) - Mohammad-Reza Shajarian (Irão)

 

Mohammad-Reza Shajarian (1940-2020), originário do Khorassan (Irão), foi o maior expoente do avaz (a arte tradicional de cantar a poesia clássica persa).  Destacou-se pela sua voz profunda e emotiva, pela sua técnica perfeita e pelo seu papel fundamental na preservação da cultura do seu país. A música de Shajarian é complexa e rica e o cantor e compositor usa a voz para pintar sentimentos profundos e estados de alma. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Shajarian consolidou-se como o maior guardião do Radif (o cancioneiro tradicional do Irão) e tornou-se, indubitavelmente, o intérprete mais influente da música iraniana. Em 1999, a UNESCO concedeu-lhe o Prémio Picasso e, em 2006, a Medalha Mozart. Em 2017, o Los Angeles Times considerou-o como "O maior maestro vivo da música clássica persa".



Nedaye Eshgh”, frequentemente grafado como Nedoye Eshgh, foi editado por Mohammad-Reza Shajarian como um single isolado no final de 2019, ao contrário dos seus monumentais álbuns conceituais gravados ao vivo ou em estúdio, com instrumentos puramente tradicionais persas (como o tar, o santoor e o kamancheh). Este tema possui uma importância singular e altamente atípica na discografia do mestre da música clássica persa, tanto mais que representa uma das raríssimas vezes em que o canto avaz (tradicional e improvisado) foi oficialmente fundido com a música ambient e eletrónica, através de uma colaboração e remistura com o projeto Seventh Soul. Serviu para Shajarian como uma ponte moderna para apresentar a poesia mística e o canto clássico a uma nova geração de ouvintes iranianos. O poema aborda o "chamamento do amor" e a ideia de que todos os seres humanos provêm da mesma fonte divina. Ouvintes ocidentais que não compreendem o idioma farsi conseguem absorver o impacto emocional do tema, graças à entrega vocal emotiva de Shajarian, que transmite a urgência e a devoção contidas nas palavras do célebre poeta persa Hafez, do século XIV.





quarta-feira, 1 de julho de 2026

18. “The Host of Seraphim” (1988, 4AD) - Dead Can Dance (Austrália)

 

Os Dead Can Dance são um famoso duo musical de culto formado em Melbourne, na Austrália, em 1981, composto por Lisa Gerrard e Brendan Perry. A banda mudou-se para Londres, no ano seguinte, engrossando os quadros da carismática editora independente 4AD. Fundindo, ao longo dos tempos, géneros musicais tão diferentes como a pop, a folk, música medieval e renascentista, ritmos tribais e inspirações vindas um pouco de todo o mundo, os Dead Can Dance criaram peças de uma beleza intemporal, fluida e etérea, a maior parte delas coroadas pela voz mágica de Lisa Gerrard. Considerado pioneiro no subgénero neoclassical darkwave, o duo separou-se em 1998, mas juntou-se várias vezes para digressões mundiais e lançou novos álbuns, como “Anastasis” (2012) e “Dionysus” (2018).



“The Host of Seraphim”, o tema de abertura do álbum “The Serpent's Egg” (1988), é o mais emblemático e reconhecido dos Dead Can Dance. A obra destaca-se pela sua atmosfera épica, espiritual e fúnebre, misturando cantos operísticos e instrumentação gótica. O título remete diretamente aos serafins (seres celestiais ou anjos da mais alta ordem na tradição judaico-cristã), com a intenção de evocar uma sensação de transcendência e pureza. Curiosamente, enquanto a melodia soa divina, a letra escrita por Brendan Perry aborda o desencanto, a desilusão amorosa e o peso de expetativas frustradas numa relação. Lisa Gerrard usa a voz como um instrumento e não canta palavras reais, mas sim uma linguagem inventada (glossolalia), o que reforça o tom épico e místico do tema. Frequentemente descrita como uma experiência sonora trascendental que evoca a vastidão da morte e do divino, "The Host of Seraphim" é aclamada pela crítica como uma obra-prima gótica e etérea, tendo ganho fama mundial ao integrar a banda sonora do aclamado documentário visual Baraka (1992), de Ron Fricke. O prestigiado AllMusic considera o tema “tão incrivelmente bom que a única reação possível é o puro deslumbramento.”





segunda-feira, 29 de junho de 2026

17. “Alleluja” (1997, Erdenklang) - Vox (Bulgária / Alemanha / Líbano)

 

O projeto musical Vox, fundado em 1989 e dirigido pelo músico, musicólogo e compositor búlgaro Vladimir Ivanoff, é um prestigiado agrupamento de world music e música antiga, conhecido por ter inventado o conceito de música eletrónica medieval. O projeto é amplamente referenciado pela sua abordagem vanguardista na reinterpretação da música da Idade Média e da tradicional europeia, interligando-as com linguagens sonoras contemporâneas e pós-modernas. Seguindo a linha filosófica do Ensemble Sarband, o outro aclamado projeto de Ivanoff, os Vox procuram pontos de contacto e diálogos espirituais entre as culturas do Mediterrâneo, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islão. À parafernália de instrumentos antigos e étnicos (sanfona, trompete árabe medieval, bombarda, alaúde, órgão de foles, santur, entre outros), juntam-se os samplers e os sintetizadores, mas também as vozes femininas inseridas no espírito e nas normas, sempre subjetivas da música da “Idade das Trevas”.




“Alleluja” é a faixa mais fascinante do projeto Vox e carrega importantes referências históricas, religiosas e estruturais. Foi lançada originalmente em 1997 no álbum “X Chants from the Christian Arab Tradition” (pela etiqueta Erdenklang), reeditado em 1999 sob o título "Divine Rites" (pela Hearts of Space). A principal referência cultural da canção é a tradição litúrgica cristã do Médio Oriente. "Alleluja" baseia-se em cantos sagrados antigos das igrejas orientais primitivas (como as comunidades Maronitas e Melquitas), da região da Síria e do Líbano. A interpretação vocal central é da aclamada cantora lírica libanesa Fadia Tomb El-Hage, cuja técnica funde o canto operístico ocidental com as microtonalidades e ornamentações do canto sagrado árabe. A sua voz serve como uma ponte viva e emotiva entre o rigor musicológico de Vladimir Ivanoff e a herança espiritual árabe-cristã.




quarta-feira, 24 de junho de 2026

16. “Dilman” (2024, Music Super Circus) - Karzan Mahmood (feat. Raha Yousefi) (Irão)

 

Karzan Mahmood, nascido em 1981 na cidade de Slemani (Sulaimani), na região do Curdistão, a residir em Estocolmo (Suécia) desde 2005, é um talentoso compositor e maestro, amplamente reconhecido pelo seu trabalho na criação de bandas sonoras para cinema, televisão, teatro e videojogos. Com uma carreira marcada pela fusão única entre a música tradicional oriental e a música clássica ocidental, ganhou grande projeção internacional ao colaborar de perto com o aclamado realizador iraniano Mohammad Rasoulof, para quem produziu a banda sonora do filme “The Seed of the Sacred Fig” (2024). O seu trabalho nesta obra valeu-lhe uma nomeação para os prestigiados Hollywood Music in Media Awards. Atualmente, Karzan Mahmood continua ativo a partir do seu estúdio na Suécia, criando músicas que cruzam fronteiras culturais e que trazem uma forte carga emocional e política ao cinema contemporâneo.



“Dilman” é uma canção composta por Karzan Mahmood, que conta com a participação da cantora canadiano-iraniana Raha Yousefi, especialista na música clássica persa. Faz parte da banda sonora oficial do aclamado filme político "The Seed of the Sacred Fig" (2024), realizado pelo cineasta iraniano Mohammad Rasoulof. Como reflexo direto do filme onde se insere, a música aborda temas profundos de resistência, opressão política e a dor da perda de liberdade. Na língua curda e em certos dialetos da região, a palavra “Dilman” (ou variações próximas) está ligada ao "coração", à "alma" ou a um apelo emocional íntimo, funcionando como um lamento ou uma expressão de angústia e afeto profundo. A faixa evoca o ambiente de contestação social no Irão, especificamente os protestos liderados por mulheres (movimento "Mulher, Vida, Liberdade"), que servem de pano de fundo à narrativa do filme. A interpretação vocal de Raha Yousefi, combinada com a composição instrumental dramática de Mahmood, transmite uma atmosfera de sofrimento e luto pelas vítimas da repressão estatal, mas também uma força latente de sobrevivência e recusa em ser silenciado.





sábado, 13 de junho de 2026

15. “Saudade do meu Amor” (2004, Most Records) - Taffetas (Guiné-Bissau / Suíça)

 

Os Taffetas foram um aclamado projeto de World Fusion, formado na Suíça em 2003, que se destacou pela mistura da música tradicional da região Mandinga com nuances de jazz cigano e folk europeu. Baseando-se, sobretudo, nas belíssimas texturas e nos rendilhados da kora, a harpa de 23 cordas da África Ocidental, os Taffetas teceram sons com pedaços de jazz, piscadelas às ragas indianas, aproximações aos blues, namoros às mornas e casamentos com a música erudita europeia. A banda, atualmente inativa, começou originalmente como um trio, constituído por Ibrahima Galissa (da Guiné-Bissau), na kora; Marc Liebeskind (da Suíça), na guitarra e sitar; e Christophe Erard (da Suíça), no baixo e contrabaixo. Posteriormente, o senegalês Nana Cissokho (kora e voz) substituiu Galissa e o projeto passou a incluir, ainda, Fatoumata Dembélé, do Burkina Faso (percussão e voz). Em 2004, os Taffetas começaram por editar um registo notável sem título para a Most Records (reeditado dois anos depois pela Rasa Music com o nome de “Fanta”) e, em 2006, lançaram “Caméléon” para a Asmia, ambos elogiados pela crítica especializada (nomeadamente pelas revistas britânicas Songlines e Mojo).



“Saudade do meu Amor” é o tema mais fascinante dos Taffetas. Fazendo parte do alinhamento do primeiro álbum do grupo, “Taffetas” (bem como de quatro posteriores versões desse álbum, duas delas intituladas “Fanta”), e incluído na compilação “fRoots 22” (2004, Folk Roots), trata-se de uma belíssima peça instrumental. Nela, os Taffetas cruzam elegantemente a kora com a guitarra acústica e o baixo, mergulham em variadíssimos estilos musicais e em diferentes culturas e tecem uma riquíssima fusão global. Como uma paisagem de sonho, a faixa reflete intensidade emocional, uma certa solidão iluminada e um turbilhão de emoções, que traduzem perfeitamente o vazio, a contemplação, o amor e a saudade. A crítica especializada classifica a faixa como uma fusão bela e serena, elogiando a forma inteligente como une elementos da música africana e mediterrânica.




quarta-feira, 10 de junho de 2026

14. “Secondo Quadro (Ben è crudele e spietoso)” (2003, Shéhérazade) - Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri (Marrocos)

 

O projeto "Incontro a Tangeri" (Shéhérazade, 2003), da Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri (Marrocos), distinguido com um Prémio especial do CICT da UNESCO, pretende perpetuar a magnífica e ancestral tradição, nascida na época áurea da Andaluzia, em que cristãos, judeus e muçulmanos criaram poesia e música numa simbiose e harmonia excecionais. "Incontro a Tangeri" está subdividido em quadros musicais, compostos por fragmentos, partes e estrofes de três noubas arabo-andalusas cantadas pelo marroquino Younes Chadigan, de três romances sefarditas cantados por Esti Kenan Ofri (uma israelita de origem italiana) e de duas peças da música antiga cristã cantadas por Stefano Albarello (o italiano que lidera o Ensemble Cantilena Antiqua). Os arranjos de Jamal Ouassini, o marroquino que dirige a Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri, permite momentos livres que levam os três cantores a evidenciar o encontro das três culturas e religiões (cristã, judaica e árabe) e a sua origem comum, uma completa experiência espiritual de aproximação e de diálogo entre civilizações.



“Ben è crudele e spietoso” é um hino de profunda devoção e meditação sobre o amor de Cristo, o sofrimento na cruz e o mistério da Encarnação. Faz parte do célebre manuscrito medieval Laudario di Cortona (séc. XIII), a mais antiga fonte conhecida de música escrita em língua italiana e a única do seu género que sobreviveu com notação musical. A lauda (hino religioso de louvor, cantado em italiano popular) é interpretada por Stefano Albarello, superiormente acompanhado por Nour Eddine Acha no nai, um dos instrumentos de sopro mais antigos do mundo. A voz do cantor do Ensemble Cantilena Antiqua atua como uma ponte que liga o misticismo dos cânticos de confrarias italianas à sonoridade arabo-andalusa da orquestra marroquina. As raízes comuns e as escalas (como o maqam árabe) harmonizam-se com o tom modal da música medieval cristã ocidental e o resultado é verdadeiramente fascinante.