segunda-feira, 29 de junho de 2026

17. “Alleluja” (1997, Erdenklang) - Vox (Bulgária / Alemanha / Líbano)

 

O projeto musical Vox, fundado em 1989 e dirigido pelo músico, musicólogo e compositor búlgaro Vladimir Ivanoff, é um prestigiado agrupamento de world music e música antiga, conhecido por ter inventado o conceito de música eletrónica medieval. O projeto é amplamente referenciado pela sua abordagem vanguardista na reinterpretação da música da Idade Média e da tradicional europeia, interligando-as com linguagens sonoras contemporâneas e pós-modernas. Seguindo a linha filosófica do Ensemble Sarband, o outro aclamado projeto de Ivanoff, os Vox procuram pontos de contacto e diálogos espirituais entre as culturas do Mediterrâneo, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islão. À parafernália de instrumentos antigos e étnicos (sanfona, trompete árabe medieval, bombarda, alaúde, órgão de foles, santur, entre outros), juntam-se os samplers e os sintetizadores, mas também as vozes femininas inseridas no espírito e nas normas, sempre subjetivas da música da “Idade das Trevas”.




“Alleluja” é a faixa mais fascinante do projeto Vox e carrega importantes referências históricas, religiosas e estruturais. Foi lançada originalmente em 1997 no álbum “X Chants from the Christian Arab Tradition” (pela etiqueta Erdenklang), reeditado em 1999 sob o título "Divine Rites" (pela Hearts of Space). A principal referência cultural da canção é a tradição litúrgica cristã do Médio Oriente. "Alleluja" baseia-se em cantos sagrados antigos das igrejas orientais primitivas (como as comunidades Maronitas e Melquitas), da região da Síria e do Líbano. A interpretação vocal central é da aclamada cantora lírica libanesa Fadia Tomb El-Hage, cuja técnica funde o canto operístico ocidental com as microtonalidades e ornamentações do canto sagrado árabe. A sua voz serve como uma ponte viva e emotiva entre o rigor musicológico de Vladimir Ivanoff e a herança espiritual árabe-cristã.




quarta-feira, 24 de junho de 2026

16. “Dilman” (2024, Music Super Circus) - Karzan Mahmood (feat. Raha Yousefi) (Irão)

 

Karzan Mahmood, nascido em 1981 na cidade de Slemani (Sulaimani), na região do Curdistão, a residir em Estocolmo (Suécia) desde 2005, é um talentoso compositor e maestro, amplamente reconhecido pelo seu trabalho na criação de bandas sonoras para cinema, televisão, teatro e videojogos. Com uma carreira marcada pela fusão única entre a música tradicional oriental e a música clássica ocidental, ganhou grande projeção internacional ao colaborar de perto com o aclamado realizador iraniano Mohammad Rasoulof, para quem produziu a banda sonora do filme “The Seed of the Sacred Fig” (2024). O seu trabalho nesta obra valeu-lhe uma nomeação para os prestigiados Hollywood Music in Media Awards. Atualmente, Karzan Mahmood continua ativo a partir do seu estúdio na Suécia, criando músicas que cruzam fronteiras culturais e que trazem uma forte carga emocional e política ao cinema contemporâneo.



“Dilman” é uma canção composta por Karzan Mahmood, que conta com a participação da cantora canadiano-iraniana Raha Yousefi, especialista na música clássica persa. Faz parte da banda sonora oficial do aclamado filme político "The Seed of the Sacred Fig" (2024), realizado pelo cineasta iraniano Mohammad Rasoulof. Como reflexo direto do filme onde se insere, a música aborda temas profundos de resistência, opressão política e a dor da perda de liberdade. Na língua curda e em certos dialetos da região, a palavra “Dilman” (ou variações próximas) está ligada ao "coração", à "alma" ou a um apelo emocional íntimo, funcionando como um lamento ou uma expressão de angústia e afeto profundo. A faixa evoca o ambiente de contestação social no Irão, especificamente os protestos liderados por mulheres (movimento "Mulher, Vida, Liberdade"), que servem de pano de fundo à narrativa do filme. A interpretação vocal de Raha Yousefi, combinada com a composição instrumental dramática de Mahmood, transmite uma atmosfera de sofrimento e luto pelas vítimas da repressão estatal, mas também uma força latente de sobrevivência e recusa em ser silenciado.





sábado, 13 de junho de 2026

15. “Saudade do meu Amor” (2004, Most Records) - Taffetas (Guiné-Bissau / Suíça)

 

Os Taffetas foram um aclamado projeto de World Fusion, formado na Suíça em 2003, que se destacou pela mistura da música tradicional da região Mandinga com nuances de jazz cigano e folk europeu. Baseando-se, sobretudo, nas belíssimas texturas e nos rendilhados da kora, a harpa de 23 cordas da África Ocidental, os Taffetas teceram sons com pedaços de jazz, piscadelas às ragas indianas, aproximações aos blues, namoros às mornas e casamentos com a música erudita europeia. A banda, atualmente inativa, começou originalmente como um trio, constituído por Ibrahima Galissa (da Guiné-Bissau), na kora; Marc Liebeskind (da Suíça), na guitarra e sitar; e Christophe Erard (da Suíça), no baixo e contrabaixo. Posteriormente, o senegalês Nana Cissokho (kora e voz) substituiu Galissa e o projeto passou a incluir, ainda, Fatoumata Dembélé, do Burkina Faso (percussão e voz). Em 2004, os Taffetas começaram por editar um registo notável sem título para a Most Records (reeditado dois anos depois pela Rasa Music com o nome de “Fanta”) e, em 2006, lançaram “Caméléon” para a Asmia, ambos elogiados pela crítica especializada (nomeadamente pelas revistas britânicas Songlines e Mojo).



“Saudade do meu Amor” é o tema mais fascinante dos Taffetas. Fazendo parte do alinhamento do primeiro álbum do grupo, “Taffetas” (bem como de quatro posteriores versões desse álbum, duas delas intituladas “Fanta”), e incluído na compilação “fRoots 22” (2004, Folk Roots), trata-se de uma belíssima peça instrumental. Nela, os Taffetas cruzam elegantemente a kora com a guitarra acústica e o baixo, mergulham em variadíssimos estilos musicais e em diferentes culturas e tecem uma riquíssima fusão global. Como uma paisagem de sonho, a faixa reflete intensidade emocional, uma certa solidão iluminada e um turbilhão de emoções, que traduzem perfeitamente o vazio, a contemplação, o amor e a saudade. A crítica especializada classifica a faixa como uma fusão bela e serena, elogiando a forma inteligente como une elementos da música africana e mediterrânica.




quarta-feira, 10 de junho de 2026

14. “Secondo Quadro (Ben è crudele e spietoso)” (2003, Shéhérazade) - Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri (Marrocos)

 

O projeto "Incontro a Tangeri" (Shéhérazade, 2003), da Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri (Marrocos), distinguido com um Prémio especial do CICT da UNESCO, pretende perpetuar a magnífica e ancestral tradição, nascida na época áurea da Andaluzia, em que cristãos, judeus e muçulmanos criaram poesia e música numa simbiose e harmonia excecionais. "Incontro a Tangeri" está subdividido em quadros musicais, compostos por fragmentos, partes e estrofes de três noubas arabo-andalusas cantadas pelo marroquino Younes Chadigan, de três romances sefarditas cantados por Esti Kenan Ofri (uma israelita de origem italiana) e de duas peças da música antiga cristã cantadas por Stefano Albarello (o italiano que lidera o Ensemble Cantilena Antiqua). Os arranjos de Jamal Ouassini, o marroquino que dirige a Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri, permite momentos livres que levam os três cantores a evidenciar o encontro das três culturas e religiões (cristã, judaica e árabe) e a sua origem comum, uma completa experiência espiritual de aproximação e de diálogo entre civilizações.



“Ben è crudele e spietoso” é um hino de profunda devoção e meditação sobre o amor de Cristo, o sofrimento na cruz e o mistério da Encarnação. Faz parte do célebre manuscrito medieval Laudario di Cortona (séc. XIII), a mais antiga fonte conhecida de música escrita em língua italiana e a única do seu género que sobreviveu com notação musical. A lauda (hino religioso de louvor, cantado em italiano popular) é interpretada por Stefano Albarello, superiormente acompanhado por Nour Eddine Acha no nai, um dos instrumentos de sopro mais antigos do mundo. A voz do cantor do Ensemble Cantilena Antiqua atua como uma ponte que liga o misticismo dos cânticos de confrarias italianas à sonoridade arabo-andalusa da orquestra marroquina. As raízes comuns e as escalas (como o maqam árabe) harmonizam-se com o tom modal da música medieval cristã ocidental e o resultado é verdadeiramente fascinante.






quinta-feira, 4 de junho de 2026

13. "Be Mankan" (World Circuit, 2005) - Ali Farka Touré & Toumani Diabaté (Mali)


Ali Ibrahim "Farka" Touré (1939 - 2006) foi um cantor e guitarrista maliano e um dos mais renomados músicos do continente africano. A sua música é amplamente considerada como representando um ponto de interseção entre a tradicional do Mali e o blues americano. Toumani Diabaté (1965-2024), também maliano, descendente dos griots mandinka (os contadores de histórias do ocidente africano), foi considerado o maior tocador da kora, uma espécie de harpa de 21 cordas. Juntos, criaram os fabulosos álbuns "In the Heart of the Moon" (World Circuit, 2005), vencedor de um grammy, e "Ali & Toumani" (World Circuit, 2010), gravado pouco antes da morte de Ali Farka Touré. 


  


"Be Mankan" é uma versão instrumental de um antigo cântico tradicional Mandé dedicado a Alpha Yaya Diallo (um influente rei e guerreiro do final do século XIX, de Fouta Djallon, na Guiné-Conacri), que evoca um provérbio sobre como o amor e a esperança fazem as lágrimas caírem face à perda. Sendo a faixa mais marcante da parceria entre Ali Farka Touré e Toumani Diabaté, faz parte do alinhamento do álbum “Ali & Toumani” e tornou-se conhecida pelo seu tom doce e acústico, misturando o estilo "blues do deserto" com a técnica de harpa africana. Complexas tapeçarias musicais, tecidas através de sinuosos e dialogantes improvisos, entrecruzam-se com uma elegância e espiritualidade transcendentes. O título, na língua Bambara, que se traduz como "A voz de todos" ou "O som da união", apela à paz, à reconciliação e à unidade entre as diferentes comunidades do Mali. Os críticos descrevem o tema como possuindo uma "graça e pose clássicas", em que a kora de Diabaté é tocada com grande contenção e equilíbrio, permitindo que a guitarra de Touré se destaque com serenidade, em vez de recorrer aos habituais arpejos rápidos e virtuosos do instrumento.