quarta-feira, 10 de junho de 2026

14. “Secondo Quadro (Ben è crudele e spietoso)” (2003, Shéhérazade) - Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri (Marrocos)

 

O projeto "Incontro a Tangeri" (Shéhérazade, 2003), da Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri (Marrocos), distinguido com um Prémio especial do CICT da UNESCO, pretende perpetuar a magnífica e ancestral tradição, nascida na época áurea da Andaluzia, em que cristãos, judeus e muçulmanos criaram poesia e música numa simbiose e harmonia excecionais. "Incontro a Tangeri" está subdividido em quadros musicais, compostos por fragmentos, partes e estrofes de três noubas arabo-andalusas cantadas pelo marroquino Younes Chadigan, de três romances sefarditas cantados por Esti Kenan Ofri (uma israelita de origem italiana) e de duas peças da música antiga cristã cantadas por Stefano Albarello (o italiano que lidera o Ensemble Cantilena Antiqua). Os arranjos de Jamal Ouassini, o marroquino que dirige a Orchestra Arabo-Andalusa di Tangeri, permite momentos livres que levam os três cantores a evidenciar o encontro das três culturas e religiões (cristã, judaica e árabe) e a sua origem comum, uma completa experiência espiritual de aproximação e de diálogo entre civilizações.



“Ben è crudele e spietoso” é um hino de profunda devoção e meditação sobre o amor de Cristo, o sofrimento na cruz e o mistério da Encarnação. Faz parte do célebre manuscrito medieval Laudario di Cortona (séc. XIII), a mais antiga fonte conhecida de música escrita em língua italiana e a única do seu género que sobreviveu com notação musical. A lauda (hino religioso de louvor, cantado em italiano popular) é interpretada por Stefano Albarello, superiormente acompanhado por Nour Eddine Acha no nai, um dos instrumentos de sopro mais antigos do mundo. A voz do cantor do Ensemble Cantilena Antiqua atua como uma ponte que liga o misticismo dos cânticos de confrarias italianas à sonoridade arabo-andalusa da orquestra marroquina. As raízes comuns e as escalas (como o maqam árabe) harmonizam-se com o tom modal da música medieval cristã ocidental e o resultado é verdadeiramente fascinante.






quinta-feira, 4 de junho de 2026

13. "Be Mankan" (World Circuit, 2005) - Ali Farka Touré & Toumani Diabaté (Mali)


Ali Ibrahim "Farka" Touré (1939 - 2006) foi um cantor e guitarrista maliano e um dos mais renomados músicos do continente africano. A sua música é amplamente considerada como representando um ponto de interseção entre a tradicional do Mali e o blues americano. Toumani Diabaté (1965-2024), também maliano, descendente dos griots mandinka (os contadores de histórias do ocidente africano), foi considerado o maior tocador da kora, uma espécie de harpa de 21 cordas. Juntos, criaram os fabulosos álbuns "In the Heart of the Moon" (World Circuit, 2005), vencedor de um grammy, e "Ali & Toumani" (World Circuit, 2010), gravado pouco antes da morte de Ali Farka Touré. 


  


"Be Mankan" é uma versão instrumental de um antigo cântico tradicional Mandé dedicado a Alpha Yaya Diallo (um influente rei e guerreiro do final do século XIX, de Fouta Djallon, na Guiné-Conacri), que evoca um provérbio sobre como o amor e a esperança fazem as lágrimas caírem face à perda. Sendo a faixa mais marcante da parceria entre Ali Farka Touré e Toumani Diabaté, faz parte do alinhamento do álbum “Ali & Toumani” e tornou-se conhecida pelo seu tom doce e acústico, misturando o estilo "blues do deserto" com a técnica de harpa africana. Complexas tapeçarias musicais, tecidas através de sinuosos e dialogantes improvisos, entrecruzam-se com uma elegância e espiritualidade transcendentes. O título, na língua Bambara, que se traduz como "A voz de todos" ou "O som da união", apela à paz, à reconciliação e à unidade entre as diferentes comunidades do Mali. Os críticos descrevem o tema como possuindo uma "graça e pose clássicas", em que a kora de Diabaté é tocada com grande contenção e equilíbrio, permitindo que a guitarra de Touré se destaque com serenidade, em vez de recorrer aos habituais arpejos rápidos e virtuosos do instrumento.