quarta-feira, 14 de outubro de 2026

31. “Inuit Wedding” (1998, Amiata Records) - Sainkho Namtchylak (Tuva)

 

Natural de Tuva, Sainkho Namtchylak é uma representante da nova tendência batizada pela dupla Joseph Celli/Jin Hi Kim como No World, isto é, música contemporânea, criativa e aberta, que abrange jazz avant-garde, eletrónica e influências da música tradicional. Enraizada na terra, não devido a qualquer propósito conservacionista, mas porque toda a criação musical deve ter em conta o seu passado e a sua geografia, a voz de Sainkho evidencia uma forte componente expressiva, por vezes à beira do sussurro, outras próxima do grito ou do gemido. Sainkho utiliza a garganta como um instrumento e é exímia a cantar em overtone. Embora as influências siberianas dominem, exercem impacto na voz de Sainkho as raízes turcas compartilhadas com a Mongólia, os Uigures de Xinjiang e os estados da Ásia Central; os grupos étnicos nómadas da Sibéria e outros grupos minoritários do oeste dos Montes Urais; e as populações provenientes da Ucrânia e Tartaristão estabelecidas em Tuva.




“Inuit Wedding”, incluído no registo “Naked Spirit” (1998, Amiata Records), é uma das faixas mais emblemáticas de Sainkho Namtchylak. Trata-se de uma canção inteiramente vocal e instrumental baseada em técnicas ancestrais de improvisação, não possuindo, por isso, um texto lírico convencional (letras com palavras e significado linguístico). O que se ouve, na verdade, são sons vocais rítmicos, arquejos, inspirações e expirações profundas combinadas com sons guturais alternados. Tradicionalmente, este canto era um jogo de respiração e entretenimento focado na cumplicidade entre as mulheres Inuit (indígenas originárias das regiões árticas), enquanto os homens saíam para caçar. As referências estéticas da faixa evocam a celebração de um casamento tradicional e místico através de elementos sonoros minimalistas. Um tambor dita uma pulsação lenta, simulando o ritmo cardíaco ou passos no gelo e chocalhos de madeira e drones etéreos criam uma textura de transe e conexão com a imensidão do Ártico. A faixa é descrita pela crítica especializada como uma peça "perigosamente selvagem" (dangerously wild) que mistura o canto difónico tradicional (throat singing) com experimentação avant-garde, improvisação livre e paisagens sonoras inspiradas na natureza.





quarta-feira, 7 de outubro de 2026

30. “Dolce lo mio drudo” (1999, Fonè) - Al Qantarah (Itália)

 

Constituído em torno de um projeto de pesquisa sobre a música da Sicília, o ensemble italiano Al Qantarah (nome de um rio a leste da Sicília, que em árabe significa “ponte”) formou-se em Bolonha, em 1990 por Fabio Tricomi. Encetaram, então, uma fusão entre o repertório da Idade Média e o da tradição siciliana, bem como entre repertórios da música árabe e do Médio Oriente. Para alcançar essa sonoridade multiétnica, os Al Qantarah serviram-se de instrumentos ocidentais e orientais como o oud (alaúde árabe), a vielle (rabeca provençal), a symphonia (sanfona medieval) e o tar e o setar (instrumentos de cordas persas), entre outros.


“Dolce lo mio drudo”, incluído no disco “Abballati, abballati! Canti e suoni della Sicilia Medievale” (Fonè, 1999), do ensemble italiano Al Qantarah, é atribuído ao grande Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Frederico II (século XII). A letra expressa um apelo amoroso ou a contemplação apaixonada dedicada ao "doce amado", inserindo-se na tradição da poesia lírica medieval italiana. Um anónimo do século XV, posteriormente, compôs a música. A principal fonte utilizada pelo Ensemble Al Qantarah para a sua interpretação foi a obra etnográfica de Nino Pirrotta, musicólogo italiano de renome internacional, que se especializou no repertório transalpino das épocas medieval, renascentista e barroca tardia. O tema, Interpretado pela voz da cantora iraniana Farzaneh Joorabchi, acompanhada pela de Roberto Bolelli, constitui um magistral e intemporal hino à beleza.