sexta-feira, 29 de maio de 2026

12. “Moșule, Te-aș Întreba” (Electrecord, 1979) - Dona Dumitru Siminică (Roménia)

 

Dona Dumitru Siminică (13/09/1926 – 27/11/1979), nascido em Târgoviște, perto de Bucareste (Roménia), era um violinista e cantor, com voz de falsete, andrógina e perturbadora, um "instrumento" perfeito, afinado e com um timbre magnífico. Siminică revelou-se um dos mais importantes representantes da música de lăutari (tradicional cigana da Roménia). Quando cantava "cântece de pahar" (canções de beber), "cântece de jale" (lamentos) ou "cântece de dragoste" (canções de amor), Dona Dumitru Siminică oferecia consolo aos solitários, curava as feridas dos apaixonados e preparava os recém-apaixonados para o fim do seu amor. As suas gravações contam com o acompanhamento virtuoso do țambal (cimbalo), violino e contrabaixo, típicos dos tarafuri (bandas lăutari) de Bucareste.


   

"Moșule, Te-Aș Întreba" é uma obra clássica da muzică lăutărească, que se tornou celebrizada pela voz icónica de Dona Dumitru Siminică. Pode ser encontrada em nove compilações, nomeadamente nas conhecidas “Sounds From a Bygone Age · Vol. 3” (2006, Asphalt Tango) e “Inel inel de aur” (1979 e 2003, Electrecord). A letra da canção assume a forma de um diálogo do intérprete com um homem idoso (moșule) e aborda a dor do abandono amoroso e a busca desesperada de um homem pela sua esposa que fugiu. Adornada por solos instrumentais melódicos de violino e acordeão, e interpretada no falsete agudo, melancólico e quase etéreo de Siminică, esta canção é um exemplo perfeito do fatalismo e da profunda paixão sofrida da tradição lăutărească. Enquadra-se no género "cântece de pahar", misturando elementos do folclore tradicional romeno com a expressividade visceral da música cigana (Romani folk). Os especialistas consideram que a canção consegue transmitir a essência da doină (uma melancolia profunda e tipicamente romena, semelhante ao fado português ou ao blues), sem esforço aparente. Em suma, "Moșule, Te-Aș Întreba" não é vista apenas como uma canção de entretenimento de taberna (“muzică de mahala”), mas sim como um monumento de melancolia existencial e arte vocal pura dentro do panorama musical da Europa de Leste.





sábado, 23 de maio de 2026

11. “1.5 h” (Jaro 2008 / Kayax 2009) - Kapela ze Wsi Warszawa / Warsaw Village Band (Polónia)


O grupo polaco Kapela ze Wsi Warszawa, conhecido no ocidente por Warsaw Village Band, constituído em 1997 por seis jovens músicos que descobriram a magia dos antigos instrumentos e dos antigos estilos vocais, produz um tipo de música a que chamam "hardcore folk", um canto em forma de grito, usado no passado pelos pastores polacos. Instrumentos de cordas a soar como trombetas francesas, tambores furiosos, trance, improvisação e elementos da música das raízes são utilizados com entusiasmo e paixão pelos elementos do grupo, que adoram viajar pela Polónia e pelo mundo para transmitir à sua própria geração os estilos musicais dos antigos. De entre os instrumentos tradicionais que utilizam, saliente-se a quase extinta "Suka", um tipo único de rabeca polaca do séc. XVI, tocada com as unhas. De realçar, ainda, na Kapela ze Wsi Warszawa, a criação de ritmos a partir de dois tambores, o que é muito pouco comum em qualquer tipo de música folk.



“1.5 h”, ou “1,5h”, faz parte do alinhamento original do aclamado álbum “Infinity” (Jaro 2008 / Kayax 2009), em que a Warsaw Village Band, pela primeira vez, apresentava composições não tradicionais. O tema refere-se, segundo a cosmologia tradicional explorada pela banda, ao tempo exato que a alma humana demora a separar-se do corpo imediatamente após o último suspiro. Evoca, assim, esse estado de suspensão, onde a pessoa já não pertence à Terra, mas ainda não cruzou completamente para o "infinito", mas, de forma sublime, a Warsaw Village Band transforma o que poderia ser uma contagem decrescente sombria numa celebração mística da libertação da alma. Ao misturar elementos da tradição polaca com arranjos contemporâneos e experimentais, caraterísticos do estilo "hardcore folk" da banda, e ao incluir vozes sobrepostas que criam camadas corais transcendentais, soando "sepulcrais" e de uma densidade arrepiante, a faixa apoia-se num ritmo tenso e num pulso hipnótico e mergulha num transe sonoro carregado de mistério. De acordo com as recensões da Creative Loafing Charlotte, “1.5 h” consegue capturar e homenagear com maestria a tradição polaca Klezmer (música judaica do Leste Europeu) e entrelaçar essa herança histórica com o tradicional formato de "pergunta e resposta" dos Cárpatos, sem que a música perca a sua identidade contemporânea.




domingo, 17 de maio de 2026

10. “Szelem Szelem” (1970, Jugoton) - Esma Redzepova & Ensemble Teodosievsky (Macedónia)

 

Produto de uma família rom (cigana) muçulmana e judia (filha de mãe turca e pai sérvio), Esma Redžepova (08/08/1943 – 11/12/2016) tornou-se numa icónica cantora, compositora e ativista da Macedónia, onde nasceu. Conhecida globalmente como a "Rainha dos Ciganos", destacou-se pela sua voz poderosa (uma das 50 maiores vozes do planeta, segundo a revista National Public Radio) e por popularizar a música tradicional cigana e balcânica, a nível mundial. O sucesso de Esma está intrinsecamente ligado a Stevo Teodosievski, um conceituado compositor, arranjador e líder do Ansambl Teodosievski, que se tornou mentor, diretor musical e, mais tarde, o marido de Esma. Sob a direção de Stevo, criaram o Ensemble Teodosievski, que se tornou num dos grupos musicais mais populares e influentes da antiga Jugoslávia. O grupo combinava a autenticidade da música cigana e macedónia com elementos da pop e coreografias teatrais.

“Szelem Szelem”, frequentemente escrito como “Dzelem Dzelem”, “Djelem Djelem ou “Gelem Gelem”, é uma canção tradicional cigana com letra escrita pelo músico e compositor jugoslavo Žarko Jovanović, em 1949. Sob o título original de “Gelem, Gelem” ("Andei, Andei"), esta composição foi adotada como o hino oficial do povo cigano em 1971, durante o primeiro Congresso Mundial Romani. Aborda as migrações, as perseguições históricas sofridas pelo povo Romani (particularmente o Porajmos, a tentativa de extermínio deste grupo étnico-cultural minoritário da Europa Central, perpetrado pelo regime nazi) e a busca por união. A versão de Esma Redžepova destaca-se pelo seu alcance vocal dramático (cujo refrão reflete tanto a dor da perseguição, quanto a alegria de reencontrar a comunidade e celebrar a própria cultura), mas também pela hipnótica instrumentação de sopros e acordeão, típica dos Balcãs. Este clássico da música cigana, que celebra a identidade, o sofrimento histórico e a resiliência do povo Romani pode ser ouvido no registo “Tu Me Duj Džene” (2008, Mister Company), nas antologias da Network Medien, “Road of the Gypsies: L'Épopée Tzigane” (1996), “Flammes Du Cœur: Gypsy Queens” (1999) e “Emociones: 25 Years Network” (2005), bem como na da Accords-Croisés, “Mon Histoire/ My Story” (2007).


quinta-feira, 14 de maio de 2026

9. “Srpski polijelej – Servikos/ Polieleos Servikos” (1987, PGP RTs) - Dragoslav Pavle Aksentijević (Sérvia)


Nascido a 20 de abril de 1942, em Belgrado, Dragoslav Pavle Aksentijević tem-se dedicado à pintura inspirada nos ícones dos antigos frescos bizantinos e sérvios, mas também à pesquisa, preservação e divulgação da música antiga espiritual. Tornou-se líder do Zapis Music Group, mas foi a solo que o tenor se notabilizou, sobretudo, na interpretação da música medieval, bizantina ortodoxa e étnica dos Balcãs, principalmente da Sérvia. 


“Srpski polijelej – Servikos” (“Polieleos Servikos”), o mais emblemático tema de Dragoslav, está incluído em “Muzika stare Srbije/ Music of Old Serbia” (PGP RTs, 1987), um álbum composto por cantos sacros dos séculos XIV ao XVIII, bem como nas compilações “Narodna – Music from Albania, Croatia, Macedonia and Serbia” (Touch, 1988) e “Global Meditation” (Ellipsis Arts, 1992). Trata-se de um canto litúrgico ortodoxo do século XV, composto por Isaija Srbin (um importante monge, compositor e calígrafo, que trabalhou na transição cultural após a queda do Estado sérvio medieval sob o domínio otomano). Aksentijević transcreveu a música diretamente de manuscritos antigos e combinou a pesquisa científica com a tradição oral viva dos mosteiros ortodoxos. Interpreta a melodia principal baseada em neumas antigos (elementos básicos do sistema de notação musical utilizado na Europa medieval), acompanhado por um "íson" (uma nota pedal vocal contínua que mantém a tonalidade de fundo).




sábado, 9 de maio de 2026

8. “Ave Maria (Match Girl Mix)” (1995, Roux, Japão) - Vyatcheslav Kagan-Paley (Bielorrússia)

 

Vyatcheslav Kagan-Paley, também conhecido por Slava, é um cantor nascido em 1964 na Bielorrússia (na altura fazendo parte da União Soviética) e radicado em Israel, a partir de 2000. Contratenor, alto e barítono, Kagan-Paley é celebrado pela sua ampla extensão vocal e repertório eclético que abrange música sacra barroca, lieder românticos, composições russas e óperas contemporâneas. Estudou violino e piano em Gomel, local de nascimento, continuou os estudos no Conservatório Estatal Bielorrusso de Minsk, e iniciou a carreira de canto na Capela Académica da Bielorrússia, em 1987. Focando-se na música clássica, Kagan-Paley estabeleceu-se como um artista único, frequentemente associado a interpretações que exigem um alcance vocal invulgar. Críticos e ouvintes especializados descrevem a voz de Slava como "única", "magnífica" e dotada de uma espiritualidade profunda.


“Ave Maria (Match Girl Mix)”, incluída no registo “Due Impressione (Ave Maria Remix)” (1995, Roux), faz parte de um projeto de remixes para o mercado japonês, onde Slava teve um sucesso considerável. Atribuída a Giulio Caccini (compositor, professor, cantor, instrumentista e escritor italiano do final do Renascimento e início do Barroco), esta versão específica na verdade foi composta pelo músico Vladimir Vavilov (guitarrista, alaudista e compositor russo/soviético), por volta de 1970. A composição faz referência ao conto de 1848 "The Little Match Girl" (A Pequena Vendedora de Fósforos), do poeta e escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, reforçando a estética melancólica e etérea típica de Slava e do selo Roux. Foca-se na "impressão" e no clima nostálgico/ onírico, característica marcante da voz do contratenor, que transita magistralmente entre o registo de soprano e contralto.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

7. “Rumeli Hisari'nin Yapilisi” (2006, Poem Music) - Can Atilla (Turquia)

 

Can Atilla, nascido em 1969 em Ancara, é um conceituado compositor e músico turco, conhecido por fundir música eletrónica, clássica e étnica. Dedicando-se principalmente à música sinfónica e à new age, fílmica e épica, Can Atilla é hoje reconhecido como um dos mais importantes intérpretes da música instrumental turca contemporânea, ainda que as suas composições mais relevantes se inspirem na música tradicional. Atilla define o seu trabalho como simplesmente "composição de música", utilizando para o efeito teclados eletrónicos e instrumentos tecnológicos, entre outros. A crítica musical turca aponta Can Atilla como o pioneiro do "Ottoman Crossover", reconhecendo-lhe a relevância na modernização da herança otomana.

“Rumeli Hisari'nin Yapilisi”, uma peça instrumental que aborda a história da conquista de Istanbul em 1453, está incluída no registo “1453 Sultanlar Aşkına” (2006, Poem Music). A faixa é celebrada pela sua atmosfera épica e mística e evoca o contexto histórico da construção da Fortaleza de Rumeli (Rumeli Hisarı) em 1452, um evento crucial liderado por Fatih Sultan Mehmed (Maomé II) para controlar o Bósforo, antes da conquista de Constantinopla. É citada como o exemplo perfeito de como fundir instrumentos tradicionais (como o ney, o ud, o kudüm ou o bendir) com violinos (keman) e sintetizadores modernos (klavyeler) e soar como uma narrativa clássica com paisagens sonoras modernas. É, por isso, frequentemente descrita como uma obra que "transporta o ouvinte para o século XV, usando ferramentas do século XXI". No portal Ekşi Sözlük (uma das maiores plataformas de opinião na Turquia), é recorrentemente descrita como "hipnótica" e "mística".



quinta-feira, 23 de abril de 2026

6. "For M’schr and Djingis Khan" (1977, ECM) - Stephan Micus (Alemanha)


Stephan Micus é um cantor, multi-instrumentalista e compositor alemão, nascido em Estugarda, em 19/01/1953. Viajante incansável, desde muito cedo percorreu o planeta em busca dos mais exóticos sons do mundo. Aprendeu, simultaneamente, a tocar uma grande variedade de instrumentos tradicionais, pertencentes a diversos povos do planeta, exprimindo musicalmente uma vontade de aproximar culturas e expressões, ignoradas durante décadas. Por outro lado, Stephan Micus foi utilizando as técnicas mais avançadas para gravar as vozes que aparecem nos seus discos, criando harmonias mágicas que envolvem as suas composições como um perfume. Os temas dos seus discos são, assim, belos diálogos que refletem fielmente a sua visão global e a sua música sem fronteiras. Recolhendo elementos étnicos e religiosos das tradições do Ocidente e do Oriente, a música de Stephan Micus é, pois, uma viagem de contemplação. Mais do que pelas geografias do globo, pelos mapas do espírito...

“For M’schr and Djingis Khan”, que enquadra o registo “Implosions” (1977, ECM), é uma canção que evoca imagens das estepes mongóis e cria um impacto puramente emocional que sugere uma "tranquilidade serena", prestes a ser interrompida por algo indecifrável. Micus utiliza exclusivamente o rabab (um alaúde tradicional do Afeganistão, com 13 cordas de ressonância) e enriquece-o com a sua voz característica, cantando numa língua inventada, composta por sílabas e onomatopeias sem significado léxico específico, para realçar a pureza do som. Esta abordagem é, aliás, uma característica central de toda a obra do músico alemão, que vê a voz como um instrumento e as palavras como veículos puramente emocionais e intuitivos. Críticos do site ECM Reviews notam que este tema "se equilibra num ponto de inflexão para o infinito", elogiando como Micus utiliza um "diamante bruto" (o rabab) para ancorar os seus vocais improvisados e criar uma experiência espiritual profunda.





segunda-feira, 20 de abril de 2026

5. “True To The Times/Two” (1993, New Albion) - David Hykes (EUA)

 

David Hykes é um compositor, cantor e professor de meditação. Nasceu em Taos, Novo México (EUA), em 2 de março de 1953, e reside em Paris, desde 1987. Após pesquisas e viagens para estudar as formas de canto da Mongólia, do Tibete e do Médio Oriente, Hykes iniciou uma longa série de colaborações com especialistas em tradições e em arte sagrada, incluindo o Dalai Lama e os monges de Gyuto e Gyume (Tibete). Em 1975, fundou em Nova Iorque o Harmonic Choir e desenvolveu uma abordagem abrangente para a música contemplativa a que chamou “Canto Harmónico”, tendo sido um dos primeiros músicos ocidentais modernos a utilizar a técnica vocal em que um cantor produz duas notas distintas simultaneamente.  

             

“True To The Times/two” é uma peça incluída no registo “True To The Times (How To Be?)”, lançado originalmente em 1993 pela New Albion Records. Esta sedutora e hipnótica composição, uma fusão entre o canto harmónico e uma instrumentação sóbria, revela-se uma experiência profundamente meditativa e inovadora. Hykes canta, toca sintetizador e monitoriza um amostrador digital S1000 (para processar e gerar sons de percussão e texturas rítmicas na composição), sendo acompanhado pelos australianos Peter Biffin (dobro) e Tony Lewis (tabla). O objetivo de Hykes foi o de mostrar o canto harmónico como um campo unificado que une canto, modo, texto e ritmo sagrados. Baseou-se no canto bifónico, semelhante ao denominado "Throat singing" dos monges budistas de Gyuto ou dos cantores de Tuva. O The Guardian, jornal britânico de referência, classificou este trabalho de Hykes como um dos mais "belamente estranhos", sublinhando a mestria técnica necessária para produzir múltiplos sons simultaneamente com uma única voz.



sexta-feira, 17 de abril de 2026

4. “Margjit og Targjei Risvollo” (1989, ECM) - Agnes Buen Garnås & Jan Garbarek (Noruega)


Jan Garbarek é um aclamado saxofonista de jazz norueguês, amplamente reconhecido como uma das figuras centrais do jazz europeu contemporâneo e um dos intérpretes mais emblemáticos da ECM Records. Tornou-se famoso pelo seu tom de saxofone distintivo - muitas vezes descrito como "gelado", "nórdico" ou "etéreo" - que combina a improvisação do jazz com elementos da música tradicional escandinava, música clássica e world music. Agnes Buen Garnås (1946–2024) foi uma das mais influentes cantoras de música tradicional da Noruega, originária de uma família musical de renome em Telemark, um dos 15 condados do país. É amplamente celebrada pela sua mestria nas baladas medievais norueguesas e por ter revitalizado tradições vocais antigas, inspirando gerações de novos artistas. Juntos editaram "Rosensfole: Medieval Songs from Norway" (1989, ECM), um registo que abarca um repertório da Noruega que recua no tempo até à idade Média, em que Agnes canta em norueguês e Jan Garbarek toca sintetizadores, percussão e saxofones.

“Margjit Og Targjei Risvollo” é uma história complexa e trágica de amor frustrado numa quinta de Telemark, na Noruega. É, indubitavelmente, um tema hipnótico, convincente pelas trajetórias descritas pela voz poderosa de Agnes Buen Garnås e pela subtileza da percussão de Garbarek. Durante a maior parte desta epopeia de dezasseis minutos, Garbarek toca um pote de barro, com uma precisão que remete para os tocadores de ghatam da Índia, bem como teclas absolutamente fascinantes, que se repetem infinitamente sobre “drones” profundos. Apesar da recriação ser livre e inteiramente determinada por critérios subjetivos, mas não necessariamente arbitrários, estamos na presença de uma pérola intemporal, daquelas que se levam para uma ilha deserta.


domingo, 12 de abril de 2026

3. “Bamako” (2002, Universal) - Roswell Rudd & Toumani Diabaté (EUA/ Mali)

 

O maliano Toumani Diabaté (1965-2024) foi, segundo Nick Gold (World Circuit), o portador da chama de uma das formas de arte mais belas do mundo. Considerado o maior tocador da sua geração da famosa kora (espécie de harpa de 21 cordas), Diabaté descendeu dos griots mandinka, os contadores de histórias do ocidente africano. Roswell Rudd (1935-2017) foi um conceituado trombonista e compositor americano de jazz de vanguarda e free jazz, conhecido pela sua versatilidade e fascínio por sons africanos, tendo adaptado o seu instrumento a contextos musicais tradicionais. Em parceria, Toumani e Roswell editaram o álbum “MALIcool” (2002), que destacou a capacidade de ambos de transcender fronteiras geográficas e musicais e que contou com a participação de outros músicos de renome como Bassekou Kouyate no ngoni e Lassana Diabaté no balafon.


         

“Bamako”, a faixa de abertura de “MALIcool”, é o exemplo mais sublime que se pode encontrar de um encontro entre a música tradicional africana e o jazz moderno. As cordas delicadas e cristalinas da kora de Toumani Diabaté entrelaçam-se na sonoridade crua e expressiva do trombone de Roswell Rudd, que assume um papel quase vocal, e sugerem-nos uma imagem contemporânea da tradição clássica do Mali, em consonância com ambiências ocidentais. Ao contrário de muitas colaborações forçadas, esta é uma fusão autêntica onde as culturas se absorvem mutuamente e nos transportam para paisagens líricas, intensas, preciosamente ornamentadas e de uma beleza indescritível.





terça-feira, 7 de abril de 2026

2. “Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen” (1994, Sony Classical) - “Lambarena” (Gabão/ França/ …)

 

Albert Schweitzer (1875 - 1965) foi um teólogo, filósofo, médico, organista e reconhecido especialista da obra de Bach. Nascido na Alsácia, então parte do Império Alemão (atualmente, uma região administrativa francesa), decidiu partir para Lambaréné, no Gabão, onde se dedicou à medicina e fundou um hospital missionário. Em 1952 foi laureado com o Prémio Nobel da Paz. A francesa Mariella Berthéas e a fundação "L'Espace Afrique", fervorosos apreciadores da riquíssima obra de Albert Schweitzer, idealizaram um projeto que o homenageasse e que perpetuasse a sua memória. Nasceu, assim, "Lambarena - Bach to Africa" (1994, Sony Classical), um registo que junta as duas tradições musicais centrais da vida do médico alemão, as obras de J.S. Bach e a música do Gabão. Este arrojado projeto viria a ser concretizado pelos músicos Hughes de Courson (compositor e produtor francês, cofundador do lendário grupo Malicorne) e Pierre Akendengué (guitarrista, autor e filósofo gabonês), que se rodearam de músicos europeus com formação clássica, de dez grupos do Gabão e de músicos da Argentina (Osvaldo Cala e Tomás Gubitsch), Brasil (Naná Vasconcelos) e Camarões (Sami Ateba).

   

“Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen” é uma belíssima fusão do coro "Lasset uns den nicht zerteilen", extraído da Paixão segundo São João (BWV 245) de J.S. Bach, com o canto tradicional gabonês "Sankanda". A música de Bach, que celebra a ressurreição, combina com a dança gabonesa da região de Haut-Ogoué, interpretada na língua Obamba, que celebra acontecimentos alegres como casamentos e o fim do luto. Não se trata apenas de uma sobreposição, uma vez que as melodias barrocas de Bach são sabiamente entrelaçadas com os ritmos, coros e instrumentos tradicionais africanos. Ambas coexistem sem abdicar da sua integridade, interagem e complementam-se na sua exuberante afirmação da vida. O diálogo resultante, entre a música barroca europeia e a cultura gabonesa, capta misteriosamente o impulso musical comum às duas tradições e revela novos significados, soando surpreendentemente naturais e orgânicos.



sexta-feira, 3 de abril de 2026

1. “Persian Love” (1979, EMI Electrola) - Holger Czukay (Alemanha)

 

Enquanto os Can foram mestres da batida hipnótica e tribal através da incorporação da eletrónica no universo rock, Holger Czukay (1938–2017), o seu extraordinário baixista e cofundador, criou pontes entre as vanguardas, as linguagens pop e as emergentes “Músicas do Mundo”. Tendo estudado alguns anos com Karlheinz Stockhausen, o visionário músico alemão tornou-se, nos anos 1960 e 1970, num pioneiro das técnicas de sampling (reutilização de uma parte de uma gravação de áudio existente) que, na altura, envolviam um meticuloso processo de corte e colagem, antecipando procedimentos que acabaram por se disseminar no seio da música contemporânea.

                                        

A manipulação de fitas e o sampling nunca criaram uma faixa tão hipnótica como “Persian Love”. Peça fulcral do álbum “Movies” (1979, EMI Electrola), posteriormente lançada em single e incluída na compilação “Cannibalism III” (Spoon, 1994), trata-se de um autêntico milagre de fusão musical, convenientemente ensaiada por Holger Czukay ao longo de duas décadas de atividade experimental bem-sucedida no seio dos Can. Duas vozes persas captadas num aparelho de onda curta, ora soando em êxtase, ora em desânimo, dominam magistralmente o tema e conferem-lhe uma atmosfera de mistério e encantamento. Em estúdio, Czukay adicionou linhas de cordas e teclas cintilantes em contraponto às vozes lamentosas e etéreas e Jaki Liebezeit, também da trupe dos Can, complementou com uma batida simples e repetitiva.

A exímia combinação de cantos exóticos com estimulantes ritmos de dança fez desta peça um clássico intemporal. O músico inglês Jah Wobble, membro fundador da banda Public Image Ltd e líder dos Jah Wobble's Invaders of the Heart, referiu que "as vozes são tão bonitas que pensei nunca mais tentar cantar!"; o romancista escocês Alan Warner alegou que “Persian Love” são “6:22 da beleza e da alegria de viver”; e o jornalista e radialista português Rui Miguel Abreu considerou que o tema é “um fabuloso e visionário clássico, verdadeira música sem fronteiras e sem tempo…”