terça-feira, 7 de abril de 2026

2. “Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen” (1994, Sony Classical) - “Lambarena” (Gabão/ França/ …)

 

Albert Schweitzer (1875 - 1965) foi um teólogo, filósofo, médico, organista e reconhecido especialista da obra de Bach. Nascido na Alsácia, então parte do Império Alemão (atualmente, uma região administrativa francesa), decidiu partir para Lambaréné, no Gabão, onde se dedicou à medicina e fundou um hospital missionário. Em 1952 foi laureado com o Prémio Nobel da Paz. A francesa Mariella Berthéas e a fundação "L'Espace Afrique", fervorosos apreciadores da riquíssima obra de Albert Schweitzer, idealizaram um projeto que o homenageasse e que perpetuasse a sua memória. Nasceu, assim, "Lambarena - Bach to Africa" (1994, Sony Classical), um registo que junta as duas tradições musicais centrais da vida do médico alemão, as obras de J.S. Bach e a música do Gabão. Este arrojado projeto viria a ser concretizado pelos músicos Hughes de Courson (compositor e produtor francês, cofundador do lendário grupo Malicorne) e Pierre Akendengué (guitarrista, autor e filósofo gabonês), que se rodearam de músicos europeus com formação clássica, de dez grupos do Gabão e de músicos da Argentina (Osvaldo Cala e Tomás Gubitsch), Brasil (Naná Vasconcelos) e Camarões (Sami Ateba).

   

“Sankanda + Lasset uns den nicht zerteilen” é uma belíssima fusão do coro "Lasset uns den nicht zerteilen", extraído da Paixão segundo São João (BWV 245) de J.S. Bach, com o canto tradicional gabonês "Sankanda". A música de Bach, que celebra a ressurreição, combina com a dança gabonesa da região de Haut-Ogoué, interpretada na língua Obamba, que celebra acontecimentos alegres como casamentos e o fim do luto. Não se trata apenas de uma sobreposição, uma vez que as melodias barrocas de Bach são sabiamente entrelaçadas com os ritmos, coros e instrumentos tradicionais africanos. Ambas coexistem sem abdicar da sua integridade, interagem e complementam-se na sua exuberante afirmação da vida. O diálogo resultante, entre a música barroca europeia e a cultura gabonesa, capta misteriosamente o impulso musical comum às duas tradições e revela novos significados, soando surpreendentemente naturais e orgânicos.



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