sexta-feira, 3 de abril de 2026

1. “Persian Love” (1979, EMI Electrola) - Holger Czukay (Alemanha)

 

Enquanto os Can foram mestres da batida hipnótica e tribal através da incorporação da eletrónica no universo rock, Holger Czukay (1938–2017), o seu extraordinário baixista e cofundador, criou pontes entre as vanguardas, as linguagens pop e as emergentes “Músicas do Mundo”. Tendo estudado alguns anos com Karlheinz Stockhausen, o visionário músico alemão tornou-se, nos anos 1960 e 1970, num pioneiro das técnicas de sampling (reutilização de uma parte de uma gravação de áudio existente) que, na altura, envolviam um meticuloso processo de corte e colagem, antecipando procedimentos que acabaram por se disseminar no seio da música contemporânea.

                                        

A manipulação de fitas e o sampling nunca criaram uma faixa tão hipnótica como “Persian Love”. Peça fulcral do álbum “Movies” (1979, EMI Electrola), posteriormente lançada em single e incluída na compilação “Cannibalism III” (Spoon, 1994), trata-se de um autêntico milagre de fusão musical, convenientemente ensaiada por Holger Czukay ao longo de duas décadas de atividade experimental bem-sucedida no seio dos Can. Duas vozes persas captadas num aparelho de onda curta, ora soando em êxtase, ora em desânimo, dominam magistralmente o tema e conferem-lhe uma atmosfera de mistério e encantamento. Em estúdio, Czukay adicionou linhas de cordas e teclas cintilantes em contraponto às vozes lamentosas e etéreas e Jaki Liebezeit, também da trupe dos Can, complementou com uma batida simples e repetitiva.

A exímia combinação de cantos exóticos com estimulantes ritmos de dança fez desta peça um clássico intemporal. O músico inglês Jah Wobble, membro fundador da banda Public Image Ltd e líder dos Jah Wobble's Invaders of the Heart, referiu que "as vozes são tão bonitas que pensei nunca mais tentar cantar!"; o romancista escocês Alan Warner alegou que “Persian Love” são “6:22 da beleza e da alegria de viver”; e o jornalista e radialista português Rui Miguel Abreu considerou que o tema é “um fabuloso e visionário clássico, verdadeira música sem fronteiras e sem tempo…”



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